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Meios de transporte

Caminhoneiras sofrem com a falta de infraestrutura

Se houvesse condições mais adequadas, a participação feminina poderia ser maior. A boa notícia é que algumas empresas se mobilizam para transformar esse cenário

Andrea Ramos

21/07/2020 - 6 minutos, 17 segundos


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Nahyra Schwanke, 91 anos, a caminhoneira mais antiga do Brasil. Ela começou nas estradas em 1957, aos 28 anos de idade. “Nunca tive medo de viajar sozinha." Foto: Divulgação

No Brasil, o número de caminhoneiras ainda é pequeno: a atividade é majoritariamente masculina. Pesquisa sobre o Perfil dos Caminhoneiros 2019, realizada entre 1.066 motoristas de caminhão, conduzida pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), informa que cerca de 99,5% dos entrevistados eram homens; já as mulheres representavam apenas 0,5% dessa comunidade.

Como no Brasil há aproximadamente 2 milhões de caminhoneiros na ativa, pode-se estimar, ao se projetar os dados da pesquisa da CNT, que devem existir cerca de 10 mil mulheres nas cabines dos caminhões rodando pelas estradas do País.

Por meio de duas delas – Nahyra Schwanke, 91 anos, e Jéssica Valoski, 30 anos –, o caderno Mobilidade Estradão pretende, além de fazer uma singela homenagem a essas guerreiras das estradas do Brasil, trazer à luz os desafios e dificuldades que elas encontram diariamente nas estradas do Brasil e divulgar ações que melhorem suas condições de trabalho.

A pioneira das estradas

Mais de seis décadas separam Nahyra de Jéssica. No entanto, elas têm muito em comum: ambas, por exemplo, são apaixonadas pela profissão. Cada uma a seu tempo passou pelos mesmos dissabores que mulheres experimentam nessa atividade: a falta de infraestrutura adequada para elas nas estradas.

Quando Nahyra, conhecida como a caminhoneira mais velha do Brasil, começou na atividade aos 28 anos, em 1957, os maiores desafios eram encarar as péssimas condições rodoviárias e a falta de banheiros exclusivos para mulheres nos postos de parada e nos terminais logísticos.

Nahyra lembra que, na sua época, não existiam banheiros femininos nos postos de parada para caminhoneiro por um simples motivo: não havia mulheres na profissão. Por isso, a cada parada para banho, ela precisava contar com a ajuda dos amigos frentistas e caminhoneiros.

Respeito dos caminhoneiros

“Muitas vezes, tive de esperar os homens usarem o banheiro para depois entrar. E, para não ter problema, eu combinava com o frentista ou algum colega para ficar de olho e não permitir que nenhum homem entrasse enquanto eu estivesse usando o local”, diz a carreteira, ao adiantar que nunca teve problema nos seus quase 60 anos de profissão. “Os colegas sempre foram respeitosos comigo”, completa.

As poucas mulheres que ela encontrava nesses locais exclusivos para motoristas eram esposas de caminhoneiros, lembra Nahyra, ao justificar a razão de, na época, não haver banheiros femininos nesses locais.

A carreteira afirma ainda que nunca teve medo de viajar sozinha. Ela avalia que o fato de ser reservada motivou o respeito dos caminhoneiros por ela. E, sobre esse tema, é taxativa: “Quando você mantém a privacidade, não dá abertura para ninguém querer se engraçar”.

Foram nos anos 80 que Nahyra começou a perceber o movimento maior de mulheres ingressando na carreira. Para ela, as melhores condições das estradas e os caminhões mais modernos foram convidativos para que outras mulheres entrassem na atividade. A presença feminina chegou como um sopro de esperança a Nahyra, que viu a situação dos locais de parada melhorar.

É possível fazer mais pelas mulheres

Quando Jessica Valoski nasceu, em 1990, a realidade da mulher caminhoneira era melhor em relação ao período em que Nahyra começou. Mas ainda está distante do ideal.

Jessica explica que, até hoje, passa pelas mesmas situações como as vividas por sua antecessora. “Já tive de usar banheiro dos homens e pedir para as colegas ficarem alertas enquanto eu estivesse tomando banho. Muitas vezes, a gente fica sem banho. Ou até paramos de dia em locais que tenham banheiros apropriados para mulheres. Mas, normalmente, nesses lugares, é mais difícil para estacionar o caminhão, já que são paradas para turistas”, conta a jovem caminhoneira.

Jessica tornou-se motorista por influência do ex-marido, que é caminhoneiro e com quem ela trabalhou durante muitos anos. Após a separação, tornou-se motorista de transportadora. Dessa forma, ela poderia juntar dinheiro para conseguir dar entrada a um caminhão próprio. E, com isso, realizar o desejo de ser autônoma.

Primeiro caminhão

Esse também foi um período em que Jessica pôde avaliar que as mulheres autônomas sofrem bem mais com a ausência de infraestrutura em relação às funcionárias de grandes empresas.

“Muitas transportadoras possuem filiais, onde os motoristas param para descansar, a depender da rota que estão fazendo, e até tomar banho e pernoitar. Esses locais são estruturados para receber os funcionários”, completa.

Depois de um tempo como funcionária de uma transportadora, a jovem conseguiu comprar seu primeiro caminhão e partir para o negócio próprio. Comunicativa, Jessica, que é mãe de um menino de 6 anos, começou a gravar vídeos dos locais por onde passava para enviar a seu filho, que fica aos cuidados da avó materna.

O que ela não esperava é que rapidamente esses vídeos começassem a viralizar. Atualmente, também é youtuber. E, como influencer, já fez alguns trabalhos no intuito de mostrar as condições, nem sempre tão satisfatórias, vivenciadas pelos caminhoneiros em suas viagens pelo Brasil.

A Voz Delas pode mudar a realidade das estradas

Uma das ações das quais Jessica Valoski participou, chamada A Voz Delas, é promovida pela Mercedes-Benz. Mas, muito mais que uma ação de marketing, se tornou um movimento que tem tudo para mudar o destino das caminhoneiras para melhor.

Jéssica Valoski, 30 anos: “Em alguns lugares, tive de usar banheiro dos homens.” Foto: Divulgação

Sua premissa é mobilizar empresas e entidades – e não apenas aquelas ligadas ao setor de transporte – para melhorar as condições de infraestrutura para mulheres nos postos de parada e nos terminais logísticos.

Ebru Semizer, gerente sênior de marketing da Mercedes-Benz, diz que esse movimento é importante para conscientizar a sociedade sobre a situação das mulheres nas estradas. Tanto é que envolve caminhoneiras e esposas dos caminhoneiros. “Muitas mulheres viajam com os seus maridos e elas também devem ser bem cuidadas”, acrescenta Semizer.

A executiva da Mercedes revela também que, antes de iniciar o movimento, fez um levantamento em todo o País de locais que fossem adequados para as mulheres caminhoneiras com banheiros limpos, chuveiro quente e até lavanderia para que elas pudessem lavar suas roupas. Nessa pesquisa, ela constatou que são poucos os lugares que oferecem alguma infraestrutura próxima do que seria adequado à categoria.

“Criamos um site com o nome do movimento. E, a partir dele, as mulheres começaram a escrever suas ideias para melhorar as condições de trabalho nas estradas”, comenta Ebru Semizer.

Banheiro totalmente renovado

Para ilustrar o que seria um espaço adequado para a categoria, no ano passado a Mercedes-Benz reformou um banheiro do posto Abobrão Rio Doce, em Cachoeira Alta (GO). O local é um movimentado ponto de parada da BR-364, no km 113. A rodovia é conhecida pelo escoamento da produção de grãos do Norte e do Centro-Oeste para outras regiões.

O local foi todo remodelado: recebeu novo piso, azulejos, pias, boxes de chuveiro, espelhos, cadeiras e plantas. A fabricante também reformou o banheiro masculino e construiu uma lavanderia para facilitar a vida dos caminhoneiros que passam por ali.

A ideia daqui em diante é inspirar outras empresas do setor de transporte, bem como da área de cosméticos e demais interessadas, como embarcadoras, a também fazer parte desse movimento. Quem sabe tudo isso possa contribuir, de forma efetiva, para melhorar o bem-estar das mulheres nas estradas.

Para saber mais acesse: A voz delas.

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