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Meios de transporte

Startups de patinetes buscam equilíbrio financeiro em 2020

Ano passado houve fusões, parcerias e chegada de gigantes globais ao mercado. Agora, o setor busca expansão, mas com sustentabilidade

Bruno Romanini e Bruna Arimathea, de O Estado de S. Paulo

24/01/2020 - 4 minutos, 58 segundos


O publicitário Caio dos Santos usa um patinete no mínimo três vezes por semana para se deslocar da estação Faria Lima até o escritório onde trabalha, em Pinheiros. Foto: Marco Ankoski

Quem anda pela Avenida Faria Lima, em São Paulo, pode perceber: o patinete elétrico começou a pegar em 2019. Embora os preços ainda sejam altos e a falta de regulação preocupe, o setor viu muita movimentação ao longo do ano, com fusões, parcerias e chegadas de gigantes ao País. Para 2020, o desafio das startups da chamada micromobilidade vai além do equilíbrio em duas rodas: a meta é tornar as operações rentáveis e o serviço mais acessível, em termos geográficos e econômicos.

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A jornada das startups de patinetes no País não tem sido curta: foi no segundo semestre de 2018 que as primeiras empresas do setor começaram a operar por aqui. Entre elas, nomes como Yellow, Ride e a mexicana Grin, hoje reunidas sob uma mesma marca – a Grow, resultado de uma sequência de fusões, encerrada em janeiro de 2019. 

Parcerias

Além das fusões, a Grow estabeleceu parcerias importantes: desde novembro, é possível alugar os patinetes amarelos da Yellow pelo app da colombiana Rappi. Para 2020, a convergência das empresas pode ir além: segundo apurou o Estado com fontes do mercado, é possível uma fusão entre Grow e a startup de entregas em 2020. Procuradas pela reportagem, as duas empresas negaram qualquer tipo de negociação além da parceria atual. 

Outra pioneira do mercado, a Scoo também se aliou a uma gigante das entregas – o iFood. Mas a semelhança para por aí: a startup de refeições oferece os equipamentos da Scoo para que seus entregadores realizem pedidos – já foram 60 mil em São Paulo, dizem as empresas. 

A disputa no mercado também virou internacional. Em julho, a americana Lime passou a operar em São Paulo e no Rio de Janeiro. No mês passado, foi a vez de o Uber iniciar sua operação em Santos (SP). São operações ainda tímidas, do ponto de vista geográfico – algo que também faz parte do dia a dia da Scoo, que roda só na capital paulista. 

A região da Faria Lima concentra uma grande oferta de patinetes. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Para especialistas ouvidos pelo Estado, o principal desafio do setor em 2020 é baratear seu serviço. “As bicicletas compartilhadas são bem mais baratas”, aponta Paulo Furquim de Azevedo, professor de negócios do Insper. Em certos horários, andar de patinete de uma estação de metrô até em casa – um dos trajetos mais típicos desse modal – pode ser tão caro quanto fazer uma corrida de carro por aplicativo no mesmo trajeto. 

Custos

Mas as startups têm trunfos para reduzir o custo. Um deles é a fabricação local dos veículos, com design pensado para o compartilhamento – ao contrário do que vinha acontecendo até aqui. Quando as primeiras startups do setor surgiram, elas usavam patinetes comuns, fabricados na China e sem a resistência necessária para o uso coletivo. 

Agora vai ser diferente: a Scoo monta seus patinetes em Jundiaí, enquanto a Grow investirá R$ 25 milhões para criar uma fábrica na Zona Franca de Manaus. Além de mais resistentes, a “nova geração de patinetes” tenta também aumentar a autonomia das baterias elétricas, outro fator que pode melhorar a economia da operação. 

Denis Lopardo, presidente executivo da Scoo. Foto: Divulgação

O desafio é crescer com bons resultados

Hoje, todas as startups falam em evolução – a Lime, por exemplo, afirma que vem crescendo 20% ao mês no País. Mas isso nem sempre resulta em lucro – como mostra outro setor do mercado de mobilidade. Mesmo tendo mudado o uso do carro, o Uber e outros apps da “economia compartilhada” sofrem para fechar suas contas no azul. 

A questão para as startups de patinetes é descobrir como aliar esforços de expansão com sua sustentabilidade. Apesar do crescimento, a Lime pode ter prejuízo global de US$ 300 milhões este ano, estimam analistas. “A expansão precisa ser bem pensada porque o serviço tem de ser confiável. O usuário tem de achar um patinete onde e quando quiser”, diz John Paz, diretor da Lime no País. “Com uma frota pequena, isso é difícil de fazer.” Há ainda outro problema: em apps como o Uber, a posse dos ativos está com os parceiros. “Já os patinetes não têm essa vantagem: toda a infraestrutura é das empresas, o que encarece a expansão”, diz Furquim do Insper. 

Mas o setor de micromobilidade tem características que podem facilitar sua estratégia. Enquanto o mercado de caronas segue a lógica de que “o vencedor leva tudo”, no mundo dos patinetes podem existir “campeões regionais” – com empresas dominando diferentes regiões de uma cidade. É algo que acontece na China e que faria sentido em um lugar como São Paulo. “Aqui, há alta densidade de pessoas, uma projeção do crescimento disso e muitos congestionamentos”, afirma Denis Lopardo (foto), presidente executivo da Scoo.

Para Lopardo, essas peculiaridades podem movimentar o mercado em 2020, com ainda mais consolidações e parcerias com startups de entregas e de pagamentos, por exemplo. 

Outra incógnita que pode mudar o setor no ano que vem é a regulamentação dos patinetes em cada cidade. Em São Paulo, as regras foram definidas em outubro: cada corrida será taxada em R$ 0,20 e as empresas interessadas devem se credenciar junto à Prefeitura. 

Foi um acordo que não veio sem tombos: em julho, a falta de diálogo entre autoridades e startups levou à apreensão de patinetes na capital paulista. Agora, todas as startups dizem que o momento é de conversar com os municípios para entender exigências e necessidades. Entre um tropeço e outro, muita rodinha ainda vai rolar por aí. 

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