Mobilidade para quê?

Como a arborização afeta a mobilidade urbana

Vegetação melhora o ar, oferece sombra e conforto térmico, mas também causa transtornos quando não é feita de forma planejada

4 minutos, 4 segundos de leitura

10/11/2020

Por: Daniela Saragiotto

arborização nas vias impacta a mobilidade
As árvores urbanas oferecem sombra nas vias da cidade, o que facilita quem se desloca a pé ou de bicicleta. Foto: Getty Images

Quem caminha ou pedala por São Paulo sabe o quanto as sombras da arborização são preciosas e estimulam a prática desses modais. A cidade possui em torno de 650 mil árvores em seu viário, que levam mais qualidade de vida e conforto ambiental às pessoas. Mas que, também, podem afetar nossa já comprometida mobilidade urbana.

A forma mais conhecida de vegetação urbana são árvores plantadas ao longo das calçadas, além, é claro, de parques e bosques. Ela é a que está mais próxima da população nas cidades, mas é, também, a que mais carece de planejamento e fiscalização. 

Ou seja: o que poderia trazer enorme benefício se implementado de forma correta acaba impactando nossa mobilidade. E isso se dá diariamente na vida dos paulistanos, principalmente nos dias de chuva: além dos problemas nas calçadas, árvores caídas atrapalhando o tráfego, com impacto na rede de fiação elétrica e nos semáforos.

A seguir, listamos alguns dos impactos da arborização na cidade de São Paulo e exemplos de como o planejamento urbano poderia potencializar os benefícios de uma ampla cobertura verde na capital. Confira:

  1. Calçadas nada acessíveis 
Raízes destroem calçadas, dificultando a locomoção de pedestres idosos e de pessoas com deficiência. Foto: Getty Images

A lei 12.587/12, que trata da Política Nacional de Mobilidade Urbana, estabelece que os transportes não motorizados (a pé e por bicicleta) devem ter prioridade sobre os motorizados. Seu objetivo é incentivar a chamada mobilidade ativa, que é a que depende do esforço do indivíduo, com ou sem o uso de equipamentos.

Na prática, a situação é diferente: a mobilidade a pé, praticada por um terço da população paulistana, enfrenta, literalmente, diversos obstáculos. A deformação das calçadas pelas raízes das árvores é um deles: muitas das espécies que hoje vemos na cidade foram plantadas antes do calçamento e da instalação da rede de fiação elétrica. Elas não são, segundo especialistas, espécies ideais para o ambiente urbano. 

Mas temos espécies para todas as necessidades da cidade, basta que haja um planejamento e a correta reposição das árvores velhas pelas mais jovens que leve em conta as características do local de plantio.

  1. Árvores caídas 
Chuvas e ventos trazem riscos a provocam enromes prejuízos. Foto: Getty Images

Com as fortes chuvas do verão de 2019, a cidade São Paulo contabilizou um recorde de árvores derrubadas: entre 1º de janeiro e a segunda quinzena de março, 3.153 espécimes caíram, segundo dados da prefeitura. Isso equivale dizer que, a cada hora daquele ano, a cidade perdeu duas árvores.

O motivo das quedas, alegam os especialistas, é a falta de investimentos em medidas preventivas, como fiscalização, podas corretas e cortes de raízes. E, quando cai uma árvore, o impacto é imediato: elas causam trânsito, muitas vezes interrompem o fornecimento de energia por caírem em cima da fiação elétrica e impactam no funcionamento dos semáforos. Mas elas não podem ser consideradas vilãs da população: a vegetação urbana presta um grande serviço para a sociedade. 

Para organizar a reposição e a poda de árvores na cidade de São Paulo, foi criada, em 2019, a Divisão de Arborização Urbana (DAU), vinculada à Coordenação de Gestão de Parques e Biodiversidade Municipal (CGPABI). Aumentar a cobertura vegetal arbórea do município é uma das responsabilidades da divisão, bem como realizar o plantio e a manutenção das mudas de acordo com o projeto de arborização vigente. 

  1. Pouca – e desigual – cobertura verde
Selva de pedra paulistana: quase 90% da área da cidade não tem cobertura vegetal. Foto: Getty Images

Segundo uma pesquisa feita em 2017 pelo Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a cobertura verde de São Paulo é de apenas 11,7%. Esse percentual considera a malha viária da cidade, excluindo os bolsões de mata ao sul e ao norte da capital e nossos parques. 

O estudo calculou, com a ajuda do Google Street View, a cobertura verde de 23 cidades do mundo, e São Paulo ficou na penúltima posição, fazendo jus ao apelido de “selva de pedra”. 

O estudo mostrou, ainda, como a distribuição das árvores é desigual: enquanto a Zona Oeste é bem arborizada, encontrar uma sombra na região Leste da cidade é raridade. Algumas ruas no Alto de Pinheiros chegam a ter 46% de cobertura verde, enquanto, no bairro da Mooca, as vias têm menos de 3%. Investir em uma correta arborização pode trazer benefícios que vão muito além do conforto térmico: árvores removem poluentes da atmosfera e umidificam o ar.

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