Mobilidade para quê?

É possível ser sustentável e ter um carro na garagem?

A micromobilidade e a intermodalidade são alternativas que estão ganhando cada vez mais adeptos.

3 minutos, 12 segundos de leitura

09/02/2021

mobilidade sustentável
Foto: Getty Images

Os dilemas entre ser e ter e entre o individual e o coletivo têm sido cada vez mais vividos e debatidos pela sociedade. No ano passado, com a chegada da pandemia do novo coronavírus, essas ponderações passaram a ser feitas de maneira mais contundente em muitos aspectos da nossa vida, como a mobilidade urbana. Com o contínuo avanço de novos modais de transporte e diante do cenário atual de distanciamento social imposto pela quarentena, que deve perdurar ainda por boa parte de 2021, pessoas em diversos países estão abrindo mão de ter carro próprio e optando por utilizar serviços compartilhados de bikes comuns e elétricas, patinetes e até mesmo carros – serviço consolidado em alguns países da Europa e que agora começa a chegar ao Brasil.

Redução no uso do transporte público

Olhando mais de perto, em nossa metrópole, essa situação também tem uma trajetória parecida. Dados do levantamento Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana, realizado em 2020 pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, revelam que, comparada a 2019, a utilização de ônibus para deslocamento caiu de 47% para 35% e, no caso de trens e metrô, o percentual foi de 19% para 13%. No mesmo período, o uso da bike triplicou, e o deslocamento a pé deu um salto de 6% para 15%. Esses índices se referem à parcela da população que precisa continuar se locomovendo no transporte público para ir e vir do seu local de trabalho.

Isso se deve, em parte, à limitação da capacidade e ao tempo gasto no deslocamento com o transporte coletivo, que, neste último ano, se tornaram fatores de risco para a proliferação da covid-19. Ao mesmo tempo que muitas pessoas estão estudando e trabalhando em suas casas, há um aumento no uso do automóvel (seja próprio, seja alugado, seja táxis, seja por aplicativos) em decorrência desse receio de utilizar transporte público durante a pandemia. Com isso, a micromobilidade – trajetos mais curtos entre pontos locais – e a intermodalidade – quando se utiliza mais de um meio ao longo do trajeto – são alternativas que estão ganhando cada vez mais adeptos. A nova configuração também tornará necessário revisitar os modelos de subsídio ao transporte público no futuro próximo, que já está sendo afetado pela baixa arrecadação com a queda de passageiros, colocando em risco a qualidade do transporte público para quem mais faz uso dele. 

Menor emissão de CNHs

As mudanças na forma de as pessoas se deslocarem nas cidades parecem ter vindo para ficar e vão se tornar cada vez mais sofisticadas. Segundo levantamento da área de veículos do Itaú Unibanco, desde o advento da ‘uberização’, em 2014, o número de emissão de carteiras de habilitação por ano caiu 30% até 2017. Não à toa, o mesmo levantamento aponta que, hoje, entre ter e não automóvel, um em cada quatro brasileiros escolheria soluções de compartilhamento de carro.

A tendência, a partir de 2021, parece apontar para o uso de transportes individuais, como bikes, para trajetos mais curtos, e patinetes e bicicletas elétricos, para distâncias um pouco maiores. Isso fará com que o próprio conceito de deslocamento, de trabalho e até mesmo de sustentabilidade passem a ser fatores importantes no processo de decisão para a compra de um veículo. Somada a esses conceitos, a disponibilidade de novas soluções, como o compartilhamento de carros elétricos anunciados para este ano pelo Itaú, poderá ser o fiel da balança no novo relacionamento do indivíduo com esse bem que acaba por representar um papel tão importante na sociedade brasileira: liberdade de deslocamento a que preço?

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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