Mobilidade para quê?

O transporte público coletivo precisa sobreviver

“50% das pessoas que utilizam o transporte coletivo por ônibus têm nele sua única alternativa de deslocamento. Uma metrópole sem transporte coletivo é uma cidade que exclui”.

3 minutos, 5 segundos de leitura

22/09/2021

Foto: Pexels

Imagine um só dia sem ônibus ou metrô em uma grande cidade brasileira. Um dia sem os profissionais necessários em hospitais, escolas, delegacias, comércios 

Quem vive em regiões centrais, próximo à infraestrutura e aos serviços, talvez atravessasse o dia sem grandes inconvenientes. Mas essa é uma parcela menor da população. Dados da Pesquisa de Satisfação QualiÔnibus, coordenada pelo WRI Brasil com diversas cidades, mostram que 50% das pessoas que utilizam o transporte coletivo por ônibus têm nele sua única alternativa de deslocamento. Uma metrópole sem transporte coletivo é uma cidade que exclui. 

O dinamismo dos municípios vem das pessoas. Sua forma, por outro lado, é estanque, resulta de decisões do passado. O êxodo rural, no último século, resultou no Brasil de hoje, com 85% da população vivendo em áreas urbanas. Mas a promessa de oportunidades e vida próspera das cidades não foi acompanhada por políticas adequadas para acomodar, de maneira ordenada, quem chegava. 

O resultado são municípios com crescimento disperso e grandes vazios, em que muitas pessoas vivem em áreas distantes e desconectadas de empregos, hospitais, escolas, parques. Têm, no transporte público, sua conexão com a cidade, de modo que o serviço foi reconhecido como um direito social, em 2015, assim como educação, saúde e segurança. A população depende dele para viver com dignidade. E a cidade depende das pessoas para prosperar.

Como escrevi no meu primeiro artigo para o Mobilidade, nos municípios vibrantes, saudáveis e prósperos, ônibus, trens e metrôs são as opções escolhidas pela população, e não uma imposição diante da falta de alternativas. Mas, aqui, no Brasil, as cidades se desenvolveram no sentido contrário, destinando cada vez mais espaço aos veículos particulares. Novas pistas, viadutos e avenidas parecem concretizar a conexão entre as diferentes regiões da cidade, mas servem, majoritariamente, a quem pode usar o carro – às custas de congestionamento, poluição, perdas econômicas e bem-estar de todos. 

Saídas para a crise

O transporte coletivo vem, há décadas, perdendo passageiros para o transporte individual. Recentemente, carros por aplicativo capturaram clientes de trajetos curtos do transporte coletivo, fundamentais para viabilizar a operação de todo o sistema, sustentada pela tarifa, na maioria dos municípios. As pessoas escolhem o modo de transporte comparando preço e comodidade, de forma que salvar o transporte coletivo depende da qualificação contínua do serviço com a redução da tarifa. Mas como fazê-lo em meio à maior crise já vivida pelo setor? 

O cenário foi agravado pela pandemia, que escancarou a urgência de se pensar em soluções para que o sistema não apenas sobreviva mas possa se renovar e, assim, prosperar. Algumas medidas, como faixas dedicadas aos ônibus, integração física, operacional e tarifária e informação, em tempo real, para os clientes, são bastante conhecidas. Mas seria inovadora a cidade que colocasse todas em prática com agilidade e ambição. Por outro lado, há muitos caminhos a desbravar: novos modelos de contrato, modernização da frota e geração de receitas extratarifárias com base na cobrança dos impactos negativos gerados pelo uso do carro, entre outros tantos. 

Desejo, profundamente, que uma metrópole sem transporte coletivo continue sendo apenas um exercício de imaginação; mas o colapso financeiro do sistema é um risco tangível para muitos prefeitos. Crises geram também oportunidades. Que as nossas cidades e seus líderes tenham a coragem de abraçá-las é – mais do que um desejo – uma necessidade.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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