Mobilidade para quê?

As cidades prósperas do amanhã serão definidas hoje

O acesso a oportunidades deve guiar o desenvolvimento de nossas cidades, começando agora

3 minutos, 8 segundos de leitura

23/06/2021

cidades inteligentes

Convido vocês a pensar em como a vida e os deslocamentos em nossas cidades podem ser mais saudáveis, seguros e repletos de oportunidades.
Vamos seguir os passos de uma família no Brasil de 2040. Ao acordar, o pai decide com a filha como irão à escola. A escolha, quase sempre, é a bicicleta.

A menina se diverte no trajeto estimulante, por ruas tranquilas e arborizadas. Dez minutos depois, ela chega à escola superanimada, contando aos professores o que viu no caminho ؘ– a nova pintura no restaurante da esquina, idosos reunidos sob árvores floridas que substituíram uma rua asfaltada, o vaivém de pessoas na feira da praça central do bairro.

Depois de deixar a filha, o pai também segue a rotina. Alguns dias da semana, volta para casa, de onde realiza trabalho remoto. Quando vai ao escritório, pedala até a estação e usa o transporte coletivo público na última parte do trajeto. A combinação é rápida, vantajosa e barata, e garante acesso fácil não só ao trabalho e à escola mas a parques, hospitais, comércio, restaurantes, casa de parentes e amigos. Nos momentos de lazer, é fácil pagar pelo uso de um carro e pegar estrada.

Deslocar-se em transporte coletivo pela cidade é confortável, com ar-condicionado e conectividade a bordo. O pai ainda lembra de quando era ele quem ia à escola, chacoalhando em ônibus a diesel barulhentos, sem saber quanto tempo ia demorar. Não imaginava que, um dia, fosse se deslocar tranquilo em veículos elétricos por essa cidade que funciona para todas as pessoas. 

Transformação possível

Foi uma longa jornada. Não a do pai ao trabalho, mas a que levou a cidade do ambiente poluído, setorizado, disperso e paralisado por congestionamentos de 20 anos antes para esse centro vibrante, verde, de baixo carbono e com acesso mais próximo a oportunidades. Foram necessárias mudanças de paradigma e muito diálogo para que a população compreendesse que as transformações seriam melhores a todos, que resultariam em mais tempo livre, uma vida mais saudável e uma cidade mais próspera.

Pode parecer utopia esse ambiente urbano seguro e amigável a pedestres e ciclistas de todas as idades. Em que o transporte coletivo é a escolha preferida da maioria da população. Em que a mobilidade sustentável é elemento central do que torna a cidade eficiente e inclusiva. Mas ele é um destino bastante tangível, e há vários centros urbanos próximos de nós que já iniciaram a necessária transformação.

Bogotá é um exemplo. A capital colombiana é uma das líderes na adoção de ônibus elétricos. Também gera recursos para um fundo que subsidia o transporte público com base na cobrança de quem opta por usar o carro. Muitas cidades europeias passaram a adotar limites de velocidade menores em suas vias, calçadas mais amplas e ciclofaixas mais largas para que todas as pessoas – crianças, adultos e idosos; pedestres, ciclistas e motoristas – se desloquem e desfrutem do espaço urbano com conforto e segurança. Por aqui, Fortaleza, capital do Ceará, que há anos investe nas bicicletas e em segurança no trânsito, criou quase 80 quilômetros de ciclovias durante a pandemia.

Como podemos multiplicar essas boas práticas no Brasil? E o que mais é necessário para a transformação de nossos centros urbanos nas cidades que queremos? Convido vocês a acompanharem, nas próximas colunas, o caminho a ser percorrido. Será uma viagem pautada por dados, mas que nunca perderá o foco nas pessoas. Com estratégias de longo prazo e ações imediatas. Afinal, a construção da cidade do futuro começa agora. Mãos à obra.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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