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Mobilidade para quê?

Por mais Rebeccas no setor automotivo

Não tem segredo, a receita não tem. É necessário foco e persistência para alcançar as metas e não olhar pelo retrovisor. Let´s go mulherada, o hoje pode ser agora.

5 minutos, 51 segundos de leitura

06/06/2022

rebecca menezes mecânica
A mecânica Rebecca Menezes: “Em geral, atendo apenas mulheres, só atendo homens se um serviço foi cancelado ou a demanda ‘casa’''. Foto: Acervo Pessoal

Paulistana, do bairro da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, Rebecca Menezes, quando pequena tinha duas grandes inspirações em casa: seu pai Saulo e o avô Cláudio, ambos mecânicos. Desde pequena, assume que não gostava de ficar parada brincando de boneca, gostava mesmo era de movimento, adrenalina, como andar de bicicleta e, sim, apreciava os carros.

“Não sei se posso dizer que queria ser mecânica desde criança, mas era uma área que já me interessava. Sempre gostava de ver carros diferentes, ver meu pai consertando o carro da minha família”. Aos 14 anos, pediu ao pai que a levasse em uma feita automotiva e foi, ali, que realmente se apaixonou pelo setor e decidiu que era isso que queria para a vida toda.

Com a ajuda do pai, que passou a acompanhá-la frequentemente em outros eventos, foi na garagem de casa que o contato mesmo com a graxa aconteceu, porém, nesse meio tempo, também se descobriu na confeitaria, já que seu outro hobby era a cozinha. Chegou a ter uma confeitaria, fazia os doces e vendia na rua, aceitava encomenda, e o negócio era organizado mesmo como uma pequena empresa.

Ela confessa que chegou a pensar em seguir como confeiteira ou seguir na gastronomia. “Mas, aí, eu decidi ser mecânica e deixei esse negócio para trás.” Mesmo familiarizada com o universo dos parafusos, torquímetros, macacos, manômetros, além dos exemplos dentro de casa, ainda assim, a família da jovem estranhou quando ela reconheceu que seria mecânica.

O estranhamento e a aceitação seriam seus primeiros desafios. Teria que superar e provar que também seria capaz de estar ali. Logo depois que decidiu seguir por esse caminho, começou a pesquisar mais sobre o assunto, ver onde poderia aprender mais. Aos 17 anos, ficou sabendo da Escola do Mecânico e começou o curso básico de Mecânica. “Depois, fui fazendo outros cursos específicos de elétrica, injeção, suspensão.”

Rebecca é mais uma das mulheres que desafiou a si mesma e as estatísticas. No País, segundo levantamento da General Motors (GM) do Brasil, as mulheres representam 46% do atendimento em oficinas mecânicas. Aos 22 anos, está noiva e não tem filhos. Sua especialidade é mexer com suspensão, freios e pneus, porém também entende de motores, serviços de montagem, balanceamento e alinhamento.

Hoje, é aluna do Senai e faz curso técnico de mecânica automotiva, como uma forma de aprender mais coisas e se capacitar mais. “Eu tenho uma rotina de trabalho e uma média de quatro atendimentos por dia, tendo apoio na base da PneuStore, que é meu atual trabalho. Em geral, atendo apenas mulheres, só atendo homens se um serviço foi cancelado ou a demanda “casa”.

Lidar com o pré-julgamento

Na Escola do Mecânico, Rebecca conta que foi a única mulher em todas as turmas, mas os professores não a deixavam desanimar, estavam sempre a incentivando a continuar na capacitação, além de avisar sobre as vagas de trabalho que eram inclusas e anunciadas app Emprega Mecânico, projeto 100% gratuito elaborado pela escola.

No ambiente de trabalho, ainda chama muito atenção o fato de ser uma mulher na mecânica, principalmente pelo fato de executar o serviço sozinha e saber mexer com todos os equipamentos. “Gosto muito de atender mulheres porque percebo que elas ficam mais à vontade para perguntar sobre o serviço, sobre o carro, tirar dúvidas que, às vezes, elas não teriam abertura com um mecânico homem.

Entre os planos da jovem profissional é se mudar para o interior e abrir uma rede de oficinas. Juntar conhecimento e experiência para não só mexer em carro popular, mas em modelos avançados e tecnológicos, que exijam mais conhecimento. “Eu percebo que falta esse tipo de serviço em cidades do interior porque falta mão de obra especializada por lá, daí eu abriria filiais e mais filiais com esse tipo de atendimento”, conta entusiasmada.

O machismo ainda ronda essa área. Frases do tipo “ah, você não serve para estar aqui”. Tem gente que é um pouco mais ríspida, e é preciso lidar e tocar o barco. “Ter apoio é bom, mas a força de vontade para não desistir de tudo frente aos obstáculos, é essencial. Em uma das oficinas que trabalhei, por exemplo, teve um cliente que recusou atendimento porque viu que ia ser uma mulher que ia consertar o carro dele.”

O maior desafio dela foi ingressar na mecânica mesmo, conseguir aceitação das empresas. Começou como caixa, como assistente administrativo — mesmo tendo feito a seleção para mecânica —, mas precisava começar por ali, e ficar por um tempo para, depois, confirmar se queria ir para o pátio como mecânica. “Acho que a questão de persistir, persistir sempre. Ignorar o que os outros dizem, e eliminar todas as dúvidas que vierem tentar colocar na sua cabeça. Se esse é o seu sonho, persista, não se deixe abalar, não desista dele.

A história da Rebecca se encontra com a minha

Todos os dias quando me dirijo ao escritório, eu, Sandra, penso em quantas vidas estou ajudando a transformar. Como isso impacta positivamente todo o setor, gerando mais empregos, além mover outras pessoas a empreender. Tenho muitos sonhos a realizar, um deles, é ver mais mulheres colocando a mão na graxa e fazendo o que gosta, livre de preconceitos e julgamentos. Isso porque a minha relação com o setor começou muito cedo.

Hoje, com 41 anos, tenho orgulho em dizer que, depois de dez anos, já dez redes próprias e 26 franquias. Conto com um time de 460 instrutores de treinamento e 296 colaboradores, e mais de 5 mil empregos gerados nos últimos anos. A procura de mulheres para a formação na área tem crescido também.

Em 2017, começamos com 70 mulheres formadas e, hoje, já são mais de 1500, o equivalente a 10% do quadro de alunos. Já o número de colaboradores da escola, 59% são mulheres e 41% são homens.

Recentemente, recebemos investimento da Yunus Corporate, conhecido como o banco dos pobres e dos negócios sociais, que aportou R$ 1 milhão – um dos poucos negócios fundados por uma mulher a ser selecionado para receber o investimento.

Acredito sim em um futuro bem mais esperançoso pela frente. Vejo cada vez mais empresas, instituições e marcas lutando e entrando de cabeça “nessa causa” que é a equidade de gênero. Tenho dedicado investimento e tempo em projetos de cultura, gente, inclusão feminina dentro das empresas e isso mostra que é possível chegar lá.Não tem segredo, a receita não tem. É necessário foco e persistência para alcançar as metas e não olhar pelo retrovisor. Let´s go mulherada, o hoje pode ser agora.”

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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