Mobilidade para quê?

Teletrabalho não vai acabar com os problemas de mobilidade das cidades

Ao mesmo tempo em que as empresas são as grandes protagonistas do problema, elas podem facilmente se tornarem as propulsoras da mudança

2 minutos, 47 segundos de leitura

23/10/2021

Foto: Pexels

De acordo com o último dado da PNAD Covid, pesquisa realizada pelo IBGE mensalmente de maio a novembro de 2020, o Brasil possuía 7,3 milhões de trabalhadores em home office (58,3% dos quais na região Sudeste do Brasil), um número que representa 9,1% do total de trabalhadores do País. Apesar da pesquisa ter sido descontinuada, outras sondagens do setor dão conta que o teletrabalho é uma realidade que veio para ficar.0

Visto que 49,8% das viagens motorizadas da cidade de São Paulo acontecem por causa do trabalho (Pesquisa Origem-Destino do Metrô de SP/2017), seria intuitivo então concluir que a problemática de mobilidade tenderia a melhorar nas grandes cidades, uma vez que o trabalho remoto diminui as necessidades de deslocamento. Porém, quando olhamos para as estatísticas da mobilidade nas cidades, temos uma realidade diferente: dados da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU/2020) e da Associação Nacional de Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANP Trilhos/2020) revelam redução da ordem de 70% no volume de passageiros de transportes públicos durante a pandemia.

Em contrapartida, dados do Waze mostram que os alertas de trânsito na cidade de São Paulo totalizaram 13.143 em julho de 2021 contra 7.691 no mesmo período do ano passado e números da CET indicam que, no primeiro semestre de 2021, a média de congestionamento na cidade de São Paulo foi 163% maior quando comparada com o 1º semestre de 2020.

Mais congestionamentos

Com base nessas estatísticas vemos que, mesmo com quase 10% dos trabalhadores realizando suas atividades de forma remota, tivemos um esvaziamento dos transportes públicos e um aumento considerável dos congestionamentos. Até agora, a pandemia não provocou uma mudança positiva na mobilidade da cidade, muito pelo contrário: agravou o problema mesmo tendo trazido uma mudança estrutural no volume de pessoas em teletrabalho. 

Nesse cenário caótico, que inclusive ainda intensifica a catástrofe climática, é preciso chamar a atenção para a mobilidade corporativa. Ao mesmo tempo em que as empresas são as grandes protagonistas do problema, elas podem facilmente se tornarem as propulsoras da mudança, basta colocarem a mobilidade de seus colaboradores em pauta e mudarem suas políticas internas a fim de estimular a mobilidade ativa, incentivar a mobilidade compartilhada, favorecer escolhas sustentáveis e fomentar o trabalho híbrido.

Os exemplos dos benefícios gerados são muitos: o deslocamento compartilhado é uma ótima forma de criar vínculos e incentivar o networking entre os colaboradores em um período pós isolamento social; a mobilidade ativa constrói saúde para o corpo e para a mente, aumentando a qualidade de vida e a produtividade; uma ação afirmativa que incentive a escolha do etanol traz impacto na redução da poluição associada ao ir e vir dos colaboradores. 

Precisamos agir rápido e compreender o papel da mobilidade corporativa dentro das pautas estratégicas. Não podemos achar que esse aumento estrutural do teletrabalho já resolve todas as questões, é preciso olhar para o contexto, para os dados, pensar sobre os trabalhos que vão seguir sendo presencias, sobre os deslocamentos que continuam acontecendo, sobre as pessoas. É necessário termos ousadia e responsabilidade para resolvermos os problemas que nós mesmos estamos intensificando a partir das nossas escolhas institucionais e políticas corporativas.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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