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“Vêm aí mais de 30 novos BMW, Mini e Motorrad”

Empresa prepara enxurrada de estreias, fará SUVS inéditos em SC e prevê crescer dois dígitos em 2022

11 minutos, 24 segundos de leitura

17/01/2022

Por: Tião Oliveira

Aksel Krieger da bmw
“A BMW tem uma estratégia clara de eletrificação, que visa ao aumento das vendas desse tipo de modelo.” Foto: Divulgação BMW

Com apenas 45 anos, Aksel Krieger faz parte da nova safra de líderes que comandam grandes empresas no mundo todo. O brasileiro com nome e nacionalidade dinamarquesa construiu uma carreira de sucesso no Grupo BMW.

Trabalhou na Alemanha e na África do Sul e, antes de voltar ao País para ocupar o posto de CEO e presidente, no fim de 2108, estava na China. Sempre bem-humorado, ele conversou cerca de uma hora com o Estadão por meio de chamada de vídeo.

Afirmou várias vezes que a BMW acredita no Brasil e agradeceu repetidamente aos clientes, colaboradores e concessionários pelo sucesso da companhia no País.

Qual avaliação você faz do desempenho da BMW em 2021?

Aksel Krieger: Estamos enfrentando a maior crise sanitária do século. A BMW saiu de 2021 mais forte do que entrou. A gente avançou na digitalização. Implantamos em três, quatro meses, um projeto que normalmente a gente levaria cinco anos para realizar. Isso nos deixou mais fortes e mais bem preparados.

Esse foi o avanço número um. O número dois é que aprendemos a trabalhar nesse momento de volatilidade. Nas entrevistas que eu dou, sempre falo do mundo VUCA (acrônimo em inglês para os termos volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade). E o Brasil é um VUCA com esteroide.

Tudo acontece ao mesmo tempo aqui no País. Ou seja, teve covid, câmbio disparando, inflação, crise de semicondutor… Então, a gente nunca fica entediado no Brasil. E, durante as crises, a gente fica ainda mais exposto à volatilidade. Isso aconteceu bastante em 2021. Porém, quando olho para trás fico bastante contente com os resultados da empresa no Brasil.

Temos duas plantas no Brasil: uma em Araquari (SC) e outra em Manaus (AM). Bem como escritório em São Paulo com serviços financeiros e área de vendas. E o time saiu mais bem preparado para enfrentar qualquer tipo de desafio. E quando eu falo de time, incluo nossos fornecedores, fábricas e também a rede de concessionárias, que fez um trabalho fantástico em 2021. Então, mesmo tendo sido um ano de dificuldades para a indústria a gente conseguiu crescer mais de 15% com as três marcas na comparação com 2020.

A BMW cresceu quase 17%. Já a Mini cresceu 9% e a Motorrad, 14%. Esse bom resultado é consequência de um trabalho muito bem feito. Então, eu só tenho a agradecer aos nossos colaboradores pela energia incrível. Vamos olhar o copo meio cheio para 2022. Estamos muito bem preparados para encarar os novos desafios.

Como você faz para convencer a BMW a investir no Brasil e quais novidades virão?

Krieger: O investimento de R$ 500 milhões anunciado em 2021 é para produzirmos o X3 e o X4 (SUVs) no Brasil. Tem uma cereja do bolo, mas não posso dar spoiler. A BMW nunca faz investimentos de olho no curto prazo. Quando a gente abriu a fábrica, há quase seis anos, estava ciente de que o resultado não viria rapidamente. A BMW acredita muito no Brasil. E os resultados estão vindo.

Veja com nosso crescimento está acima do da indústria de massa. Em 2022, vamos crescer acima dos dois dígitos. Vêm aí mais de 30 lançamentos da BMW, Mini e Motorrad no Brasil.

O brasileiro ama a BMW e a BMW ama o Brasil. Então, esse é um match perfeito. No Brasil, há muitos desafios. Porém, quanto maior for a previsibilidade, maior será a possiblidade de investimentos. Se a gente enxerga que o mercado de carros premium tem muito a crescer em relação ao resto do mundo.

O potencial é incrível. Nós também acreditamos muito na eletrificação e há uma ótima aceitação desses produtos no País. Em 2021, houve crescimento robusto na linha de híbridos plug-in, seguidos pelos elétricos puros. A BMW tem uma estratégia clara de eletrificação, que visa o aumento das vendas desse tipo de modelo. E o mercado brasileiro aceita muito bem a nova tecnologia. Estamos há 25 anos no País e aprendemos a navegar aqui.

Houve alguma decisão que você tomou em 2021 e, se pudesse, mudaria?

Krieger: Daria para ter acelerado o processo de digitalização. Outro exemplo: entregar o carro na casa do cliente. São coisas que a gente poderia ter feito antes mesmo da crise.

Seja como for, há um grande potencial de desenvolvimento com a digitalização. Eu teria feito mais coisas em 2019 e 2020 também.

O brasileiro está aberto às novas iniciativas. Lançar carro por exemplo dentro do TikTok, como fizemos com a M3. Fizermos uma parceria com a Farfetch (site de moda) para lançar a X7 (Dark Shadow Edition). São coisas que a gente poderia ter iniciado antes e vamos continuar fazendo no futuro.  

Por falar em futuro, quais são as metas da BMW para 2022 e o que será feito para concretizá-las?

Krieger: Em 2022, o crescimento da BMW no Brasil vai continuar. Na última parte de 2021, a gente anunciou a chegada do iX e do i4 (elétricos) no País.

Tudo que há lá fora de eletrificação a gente pretende trazer ao Brasil. Outra coisa que vamos continuar fazendo de forma intensa é centrar nos nossos clientes, estar muito próximo deles, bem como de nossa rede de concessionários.

Ou seja, teremos uma forte ofensiva de produtos, um ambicioso plano de digitalização e muito foco no cliente, que é a base do nosso negócio. Esses são os nossos pilares.
 
O veículo elétrico vai se impor diante de outras tecnologias? Se sim, quando ele terá uma participação maior de mercado?

Krieger: Pensando em modelos “limpos”, a BMW está bem avançada em relação às vendas. No ano passado, os eletrificados representaram um terço das vendas. Ou seja, isso inclui híbridos e  elétricos puros. E isso vai continuar crescendo em 2022.

A questão da infraestrutura é muito importante. Nossos carros têm dois tipos de carregador. Um é o portátil, que você leva no porta-malas e é do tipo três pinos, que pode ser usado na tomada de casa, por exemplo. O outro é o wall box, mais potente e permite carregamento rápido. Assim, 80% dos carregamentos são feitos na residência dos clientes.

Outro ponto é que a gente vem fazendo várias pesquisas e buscando novas parcerias para desenvolver a eletrificação. Por exemplo, na fábrica em Araquari temos carregamento feito por energia solar. É uma parceria com a WEG e outros fornecedores em que usamos baterias que eram usadas em trens. Ou seja, mesmo com dez, 11 anos de uso, a bateria pode ser utilizada muito bem. Nossa estratégia para o futuro está baseada também no reúso e na reciclagem, por meio de uma economia circular. No Brasil a incidência de sol é fantástica.

Então, dá para ter energia solar e ficar completamente off grid (autossuficiente na geração). Assim como nós, outras montadoras estão criando infraestrutura de carregamento. Fomos a primeira a criar um corredor, entre São Paulo e Rio de Janeiro, com postos de recarga. Vamos continuar essa ofensiva. Convido outras marcas a se juntarem a nós. Não vendemos gasolina. Vendemos carro, mobilidade e tecnologia. E parcerias permitem expandir a oferta de soluções para todos. O Brasil tem uma matriz energética muito limpa.

A Dinamarca também está crescendo rápido nesse campo (sou metade dinamarquês). Também acabamos de lançar a Série 3 Flex, a X1 Flex, que têm outra tecnologia que funciona muito bem. Dizer que no futuro haverá apenas carros elétricos puros é difícil. Haverá várias soluções, como o hidrogênio, que a BMW vem desenvolvendo. Vamos ter uma série de soluções, mas, obviamente, a eletrificação tem um papel muito importante nesse processo.

O que o governo deveria fazer para fomentar o setor?

Krieger: Antes de falar em mobilidade, é preciso falar de previsibilidade. É preciso haver segurança para o investidor. Outro ponto é a questão fiscal. Se você comparar o tamanho do meu time de vendas com o de finanças, vai ver que o de vendas é menor. Essa complexidade requer muito tempo para tocar o dia a dia.

Portanto, vemos com bons olhos uma reforma tributária. Simplificar o ambiente de negócios é fundamental para que as empresas tenham mais sucesso e possam competir em pé de igualdade com as dos demais países. Sobre a questão da mobilidade, é preciso facilitar o uso.

Por exemplo, na cidade de São Paulo não há rodízio para esse tipo de modelo, o que é muito bom. Além disso, é preciso investir em novas soluções. Basicamente, é preciso haver previsibilidade e simplificar questões do dia a dia. Estabelecer novos acordos de livre comércio, que permitam trazer componentes, também seria muito bom para o Brasil.

Como você avalia o compartilhamento de veículos? A BMW tem projetos para o Brasil?

Krieger: Há vários tipos de cliente. Uns querem ter a posse do carro, há os que compram à vista e os que preferem fazer financiamento. E os que preferem mais flexibilidade, como devolver aquele carro no fim do plano de pagamento e pegar outro novo. Alguns concessionários já fazem isso.

Na BMW, temos um projeto de mobilidade que oferece carros compartilhados e está em testes. Dá pra fazer tudo pelo app, via celular. Seja como for, por causa da pandemia percebemos que houve uma queda no interesse pelo compartilhamento.

O cliente quer ter o próprio carro, que só ele usa. Isso mexeu até na dinâmica de vendas de usados. Nos Estados Unidos, boa parte da inflação tem a ver com a alta na demanda por veículos. De todo modo, vejo o compartilhamento com bons olhos. E o carro elétrico é perfeito para isso.

É curioso. As pessoas ficam desesperadas para colocar o elétrico na tomada sempre que param em algum lugar…

Krieger: Eu vou usar um exemplo do meu dia a dia para explicar essa dinâmica. Toda noite você chega em casa e coloca o celular para carregar. Com o carro é a mesma coisa.

Basta plugar na tomada para ele estar pronto para ser usado no dia seguinte. Até recentemente, a primeira pergunta que a gente fazia era se havia wi-fi. Em breve, vai ser se há carregador para o carro elétrico.

Como está o mercado de motos para a BMW no Brasil?

Krieger: A gente tem motos de várias cilindradas. Vai da G310 até modelos 1.250, 1.600. A G310 e a F310 tiveram aceitação fantástica no Brasil. Assim como da 1250 GS, que é campeã de vendas do segmento. Estamos muito bem. A gente vendeu quase 12 mil motos em 2022, o que representa um crescimento de 14% em relação a 2020.

A BMW tem planos de trazer motos elétricas ao Brasil?

Krieger: Estamos trabalhando no desenvolvimento de motos elétricas e a gente sempre mantém todos os produtos no nosso radar. Porém, não há nenhum plano confirmado para ter uma moto elétrica no Brasil.

O que podemos esperar da BMW no futuro?

Krieger: Temos metas globais de redução de emissões de CO2. E isso envolve o Brasil. Até 2030, vamos reduzir em mais 80% as emissões no processo de produção de nossos carros. Além de buscar deixar o mundo melhor para as próximas gerações, vamos continuar oferecendo prazer a quem dirige, com muita paixão.

Tenho muito orgulho da nossa área de engenharia no Brasil. A gente também desenvolveu o app MY BMW, que é a chave digital no celular, aqui no Brasil. São soluções que o Brasil exporta. Agradeço ao time todo, aos clientes e concessionários pelo ano incrível. Há uma frase que eu costumo usar que é “Pedal to the metal”, ou seja, “Pé embaixo”.

A gente mantém o pé embaixo acreditando no Brasil.
 
O brasileiro é aberto às novas tecnologias?

Krieger: Sim. E há grandes avanços acontecendo. Até recentemente, o carro não mudava. A não ser que você instalasse alguma coisa nova, como um acessório, uma roda diferente ou o sistema de som. Hoje, os BMW são atualizados automaticamente. Você acorda pela manhã e há um novo App.

Outro dia lançamos o serviço Alexa (assistente virtual da Amazon) nos carros de modo over the air (remoto, sem interferência humana). Ou seja, o cliente pode ganhar novas funcionalidades sem precisar fazer nada. Nem precisa levar o carro a uma concessionária. Também destaco a realidade aumentada. O GPS tem mapas em 2D, com imagens flat.

Agora, quando o carro está próximo da esquina em que você precisa dobrar, por exemplo, surge uma seta digital bem mais clara. E vem muito mais. Por exemplo, o iX tem muito menos botões que os demais carros. Há mais comandos por voz e o menu de opções está ficando mais simples de usar.

Se pudesse mandar uma mensagem para o Aksel que acabara de se formar na universidade há 20 anos, qual seria?

Krieger: Uma das características de quem está no começo da carreira é a ansiedade. Eu diria: “As coisas vão dar certo, no momento certo, tenha um pouco de paciência.”

Estou com 45 anos e aprendi que a gente cresce mais quando sai da zona de conforto. Porém, não pode ficar o tempo todo fora. Então, essa seria outra dica que eu daria para o Aksel mais novo.

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