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As vantagens do ensino em tempo integral na rede pública; Pernambuco é referência

Estudo que analisou 16 anos da experiência em Pernambuco mostra que o tempo de aula aumentado reduz as taxas de homicídio de jovens homens em até 50%

4 minutos, 40 segundos de leitura

14/06/2022

Por: Estadão Conteúdo

Estudantes em atividade na Escola de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, no bairro Casa Amarela, no Recife. Foto: Pedro Menezes/Reprodução da Secretaria de Educação e Esportes do Estado do Pernambuco

Pesquisadores do Insper e da Universidade de São Paulo analisaram 16 anos de uma política referência em ensino integral no Estado de Pernambuco. Conheça essa e outras vantagens do sistema

O estudo do Insper e da USP, que tem apoio do Instituto Natura, mostrou que o tempo de aula aumentado reduz em até 50% as taxas de homicídio de jovens homens. Para os especialistas, essa diferença se dá não só porque o tempo maior na escola afasta o jovem de situações arriscadas — como o envolvimento no tráfico de drogas e outros crimes —, mas também por causa da qualidade da educação, com professores dedicados também em tempo integral e currículo diferenciado.

Não são apenas mais horas, é uma escola centrada no jovem, que faz ele entender a vida de uma maneira diferente (David Saad, presidente do Instituto Natura)


ESTUDOS COMO O DO INSPER/USP DESTACAM AS SEGUINTES VANTAGENS DO ENSINO INTEGRAL:

  • melhora na aprendizagem
  • salários maiores para os formados
  • mais empregabilidade das meninas
  • redução das desigualdades
  • queda na taxa de homicídios

PERNAMBUCO É REFERÊNCIA EM ENSINO INTEGRAL NO BRASIL

O Estado de Pernambuco aumentou o tempo de aula para 10 horas e apostou em um currículo centrado no projeto de vida e no protagonismo do estudante.

No Brasil, diferentemente de países desenvolvidos, as crianças em geral ficam só quatro horas na escola.

Pernambuco tem hoje 70% das vagas de ensino médio em tempo integral, o índice mais alto do País e considerado como máximo, já que se prevê deixar unidades com um turno só, como opção.

O Estado começou a investir em 2004 e hoje todos os municípios têm uma escola integral.

Nesse período, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Estado, o indicador nacional de qualidade, cresceu. Em 2019, as unidades que mudaram para período integral aumentaram em 21% sua nota. Estados como Ceará e Paraíba passaram a fazer o mesmo e tiveram resultados semelhantes.

Os currículos são pensados para se conectar com a realidade do estudante e desenvolver competências acadêmicas e socioemocionais.

Há projetos de orientação de estudos, tutorias, clubes de protagonismo, práticas de laboratório.

Maria Clara Araújo, de 17 anos, fica 10 horas em uma escola estadual do Recife. Ela diz que amigos a questionam sobre o tempo de aula. “Não é só ficar sentada na sala, é dinâmico, com laboratórios, disciplinas eletivas, núcleo de gênero. Não troco minha rotina por nada.”

Segundo Saad, apesar de mais gastos, com estrutura, merenda e funcionários com carga horária maior, a eficiência compensa. “Se Estados como Pernambuco, Ceará e Sergipe, que não são os mais ricos, conseguem fazer é porque é viável. O que falta é vontade política.”


A HISTÓRIA DE VITOR ARRUDA
Ele passou em primeiro lugar em uma universidade federal e cursou quatro graduações

O pernambucano Vitor Arruda, de 29 anos, vinha de uma família de agricultores analfabetos quando se deparou com a possibilidade de cursar uma das primeiras escolas em tempo integral do Estado, em Gravatá, a 70 quilômetros do Recife. Na época ele tinha 15 anos e achava que deveria vender frutas para ajudar a mãe, mas acabou escolhendo os estudos. “Eu não tinha a menor ideia do que era uma graduação, se precisava de vestibular, não tinha esse repertório”, afirma. Acabou passando em primeiro lugar em uma universidade federal e cursou quatro graduações.

Na escola, Vitor diz que foi instigado a refletir “sobre seus sonhos e sua existência”. Além das disciplinas obrigatórias, envolveu-se nos chamados clubes de protagonismo, peças de teatro e na gestão. Os alunos ajudavam a resolver problemas como carteiras quebradas e alagamento de salas. “Muitos colegas que tive na infância se envolveram com criminalidade, foram mortos. Não é romantizar, sei das dificuldades do sistema de ensino, mas a mudança foi imensa para mim.”


COMO FOI FEITO O ESTUDO DO INSPER E DA USP COM APOIO DO INSTITUTO NATURA

Com doutorado na área pela Universidade de Santord, o pesquisador do Insper e um dos responsáveis pelo estudo, Leonardo Rosa, explica que a análise usou dados de 2002 a 2018 em duas abordagens.

  1. municípios de Pernambuco que tinham escola em tempo integral versus os que não tinham: a diminuição das taxas de homicídios de homens de 15 a 19 anos foi de 37,6%
  2. cidades da fronteira com esse modelo comparadas às suas vizinhas de outro Estado, que não têm: a redução foi de 50,8%.Observação: as meninas não foram analisadas. Rosa isolou efeitos de outros programas sociais para mostrar somente a influência da escola.

    A cena da violência é muito masculina. O traficante oferece para o menino uma trajetória de sonho sedutora, ele se vê respeitado por mulheres, batendo de frente com o sistema. Nosso desafio é ganhar a retórica. Seduzir pela escola, pela cultura, pelo esporte (Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP)


EM QUE PONTO ESTÁ O ENSINO PÚBLICO INTEGRAL NO BRASIL

  • 24% das escolas de ensino médio do País são em tempo integral
  • a política começou a ser incentivada em 2016, quando o Ministério da Educação abriu editais para os Estados se inscreverem. O governo federal dava ajuda financeira
  • Nos últimos dois anos o governo de Jair Bolsonaro não fez mais editais
Reportagem de Renata Cafardo, O Estado de S. Paulo

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