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Desigualdade no mercado de trabalho é ainda mais nociva para mulheres negras

Especialista em psicologia organizacional afirma que políticas públicas trabalhistas precisam contemplar todas as mulheres; para isso, tem de haver estudo e investimento

3 minutos, 52 segundos de leitura

18/05/2022

Por: Beatriz Carvalho, PerifaConnection

As relações de gênero não podem ser entendidas de forma isolada na sociedade em que vivemos. A realidade mostra, por exemplo, que toda expressão de desigualdade e preconceito no mercado de trabalho é ainda mais nociva para mulheres pretas assalariadas. Foto ilustrativa: Pexels/Alexander Suhorucov

As relações de gênero não podem ser entendidas de forma isolada na sociedade em que vivemos. A realidade mostra, por exemplo, que toda expressão de desigualdade e preconceito no mercado de trabalho é ainda mais nociva para mulheres pretas assalariadas.

Citando dados de 2019 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, e da Relação Anual de Informações Sociais, relatório do Ministério do Trabalho, a pesquisadora Juliana Feijó afirma que no período em que foram feitos os levantamentos as mulheres negras ganharam em média 27% menos do que os homens brancos — as trabalhadoras brancas receberam 20% menos.

No ano seguinte, em 2020, uma pesquisa da instituição de ensino e pesquisa Insper mostrou que, na mesma profissão, um homem branco chega a ganhar mais que o dobro da mulher negra. A entidade analisou salários por raça e gênero no País e detalhou as informações em cinco áreas: engenharia, arquitetura, medicina, magistério, administração e ciências sociais. Em todas elas as negras ganham menos do que os homens e menos do que as mulheres brancas.

Pesquisa do Insper mostra que, entre os médicos formados em universidade pública, as mulheres negras têm salário médio de R$ 6,3 mil enquanto os homens brancos ganham R$ 15 mil. No grupo que cursou medicina em instituições privadas, a remuneração é de R$ 3,7 mil para elas e R$ 8,6 mil para eles.

Periferias — Rihanna Everden é uma mulher trans que vive na Baixada Fluminense e conhece a desigualdade de perto. Ela diz que percebe as muitas formas de preconceito desde a adolescência, quando já buscava a autonomia financeira — os gastos com impressões de currículos e as frustrações por perder vagas de emprego, porém, fizeram com que fosse trabalhar informalmente vendendo maquiagem, roupas e calçados femininos. Depois, foi monitora em festinhas infantis. E sempre ganhou menos.

Rihanna conta que no trabalho de recreação, por exemplo, a equipe masculina da empresa ganhava R$ 80 por festa. Homens e mulheres executavam tarefas iguais. Na época, ela passava pela transição de gênero e acredita que por causa da imagem recebia menos do que todo mundo: R$ 30 a cada evento.

“Como não era um emprego fixo, eles [os empregadores] faziam vista grossa, me pagavam menos que os outros. Ganhava R$ 30. Nos finais de semana, quando eu fazia mais duas ou três festas, me pagavam até R$ 90″, relata Rihanna. “Para mim, a resposta é obvia: nada mais é do que a imagem repetida da escravidão.”

Por causa do emprego com carteira assinada, a relações públicas Jenifer Silva conseguiu conhecer o Taj Mahal. Antes, porém, vendeu trufas e empadas e ensinou informática para uma idosa. Foto: arquivo pessoal

Formada em relações públicas, Jenifer Silva mora na Maré, zona norte carioca. Trabalha com carteira assinada por um órgão público, mas, antes disso, vendeu trufas e empadas e ensinou informática para uma idosa. Para ela, as mulheres negras têm sua capacidade profissional questionada, o que impede outros acessos profissionais.

“Infelizmente, a gente está cada vez mais abaixo nas profissões, e isso não significa que somos desqualificadas”, diz Jenifer. Na opinião dela, por causa do machismo, mesmo que as mulheres negras tenham mais capacidade do que os homens para cargos de liderança, elas são preteridas. “Quando a mulher lidera, ela é capaz de colocar suas opiniões sem impor nada, fora que a mulher preta carrega muito mais funções e responsabilidades dentro e fora de casa.”

Mudar a realidade — Para Jaqueline Gomes, especialista em psicologia organizacional, não basta elaborar políticas públicas trabalhistas que atendam uma pequena parcela das brasileiras. É necessário estudar e investir em algo que contemple a todas. “Por gerações, há um processo por meio da ação do Estado. Há um desinvestimento e uma política de perseguição e extermínio com violência e exclusão da população negra”, pontua. “É preciso ter uma reversão dessa política histórica, porque o futuro profissional da população negra vem sendo atrapalhado por um bom tempo. Precisamos de políticas públicas inclusivas, porque as excludentes já estão aí. É preciso investimento em ações afirmativas de reparação, inclusive no mercado de trabalho, onde essas mulheres também estão inseridas”, completa.


Por causa do emprego com carteira assinada, a relações públicas Jenifer Silva conseguiu conhecer o Taj Mahal. Antes, porém, vendeu trufas e empadas e ensinou informática para uma idosa. Foto: arquivo pessoal

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