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Na Perifa

Em trens metropolitanos de linhas privatizadas problemas viraram rotina, afirmam passageiras

Na capital paulista e região metropolitana população enfrenta desgaste físico e emocional nas linhas 8 Diamante e 9 Esmeralda

4 minutos, 37 segundos de leitura

05/04/2022

Por: Renata Leite

Foto tirada por WhatsApp em dia de falha (22 de março de 2022) na linha 9 Diamante. Foto: reprodução/TV Globo

Sair de casa de manhã para ir trabalhar ou sair mais cedo para não se atrasar tem sido uma missão praticamente impossível. Na cidade de São Paulo, as linhas de trem 8 Diamante e 9 Esmeralda, administradas pela ViaMobilidade, têm apresentado falhas diariamente e longos intervalos. Os problemas têm sido o motivo de grande insatisfação para os usuários desde que as linhas passaram a operar sob a responsabilidade da empresa, em 2022

A ViaMobilidade venceu o leilão das linhas 8 e 9 em abril de 2021 e passou a operar em janeiro de 2022. A oferta rendeu aos cofres públicos R$ 980 milhões e um contrato de 30 anos. A mesma organização também responde pelas linhas 5 Lilás e 17 Ouro (em construção), do metrô de São Paulo.

O Expresso na Perifa circulou entre as plataformas e ouviu passageiras. Todas afirmam que a situação só piorou com a concessão.


Irani Constantino, 53 anos, piloteira

Moradora de Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, Irani pega o trem para ir trabalhar há 30 anos. A viagem começaria às 6h15, mas ela sai 20 minutos mais cedo para não se atrasar em meia hora. Na linha 8, Irani parte da estação Antônio João e segue até a Júlio Prestes. “Anteriormente os trens estavam ótimos, sem atrasos, sem acidente, ar-condicionado funcionando e sempre no horário”, conta Irani. Após a privatização, segundo a usuária, os veículos chegam “tão cheios que a gente não consegue entrar; espero o próximo, mas sem sucesso. Demora de 5 a 8 minutos para passar outro, a pausa é de 5 minutos em cada estação e você fica ali dentro daquele espaço sufocando. É um empurra-empurra pra descer em cada estação. Isso está afetando a vida de todos que pegam o transporte, os atrasos, a saúde física e mental.”

Antonia Oliveira, 26 anos, publicitária

Antonia vive em Cotia e usa a linha 8 para deslocamentos de trabalho e lazer. “Na semana passada, cheguei na estação de Itapevi e estava muito cheio. Foi assustador. Pensei que não ia conseguir entrar, mas consegui. Parecia que estava em uma lata de sardinha”, compara. “No final de semana é muito pior, os trens demoram mais e eventualmente não fazem o percurso todo, precisa descer na metade do caminho e esperar o próximo”, relata. Antonia lembra ainda dos tempos da CPTM, na gestão anterior: “Antes os problemas eram mais pontuais, agora são rotina. Não dá mais para contar que vai ter trem naquele horário porque sempre tem atraso e está extremamente cheio, inclusive nas estações seguintes, porque as pessoas não conseguem nem embarcar”, explica.

Waleria Nascimento, 24 anos, enfermeira

Ela sai às 4h da manhã para entrar às 7h, no emprego. “A privatização impactou no tempo que gasto para ir ao serviço, na comodidade, uma vez que quanto mais demora o trem, mais lotado ele fica. Na incerteza do ‘será que  vai funcionar hoje?’, preciso sempre sair mais cedo, porque já conto com problemas na linha 9 Esmeralda”, conta. A enfermeira de transplante de medula óssea faz o percurso entre Grajaú e Pinheiros, ida e volta, todos os dias. O tempo médio esperado é de 45 a 50 minutos, mas chega uma hora e vinte minutos, quando há intercorrências na via.

Aline Francisca, 25 anos, analista de projetos

A linha 9 Esmeralda é usada por Aline cinco vezes por semana. Ela bate ponto às 9h e sai de casa às 7h30 por medo de se atrasar. Há 1 mês, quando voltou presencialmente ao trabalho, Aline notou que o trajeto de 15 minutos entre Santo Amaro e Morumbi passou a durar 40 minutos, quase o triplo de tempo. “Tem dias em que no horário de pico fico mais de uma hora pra pegar um trem. Saio extremamente mais cedo e, ainda sim, tem dias que me atraso”, afirma Aline. Assim como as outras entrevistadas, tem que pegar um ônibus até as respectivas estações. “O pior trajeto é o trem mesmo. Acho que gera um desgaste emocional muito grande. Bate o desespero, cansaço, passar estresse na ida e volta”, ressalta Aline.


Como medida para punir o caos imposto à população, o Governo do Estado de São Paulo deu 15 dias para que a ViaMobilidade apresentasse uma defesa. A multa à concessionária poderá chegar até 4,3 milhões de reais. No dia 31 de março, o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar as falhas na operação das linhas. O órgão cita alguns episódios, como a batida de um trem com passageiros contra a barreira de proteção na Estação Júlio Prestes e a morte de um funcionário enquanto fazia a manutenção de um transformador.

OUTRO LADO

Por meio de nota, a ViaMobilidade disse que as falhas já estão sendo corrigidas. “Em dois meses de operação, desde 27 janeiro de 2022, as linhas 8 Diamante e 9 Esmeralda de trens metropolitanos receberam melhorias como a antecipação de investimentos na rede aérea (sistema responsável pela transmissão de energia elétrica necessária à movimentação dos trens) e a intensificação de segurança nas vias para mitigar furtos de cabos.

Levantamento feito pela TV Globo mostra que em 47 dias de 2022 foram registradas 31 ocorrências — 14 na linha 8 e 15 na linha 9- Esmeralda. Em 2021 inteiro, as duas linhas somadas tiveram 15 falhas e nenhum furto. O sistema tem mais de 1 milhão de usuários. Foto: Estadão Conteúdo

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