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Gênero musical, arrocha revela talentos do interior da Bahia para o Brasil

Ritmo desafia resistência e preconceitos

4 minutos, 14 segundos de leitura

31/05/2022

Por: Jaqueline Ferreira

Nenho ficou conhecido em toda a Bahia ao ganhar a música do carnaval 2019, com Desça daí, seu Corno, uma composição que tem mais de 20 anos e ganhou roupagem de arrocha. Foto: divulgação

A música baiana vai além dos famosíssimos axé, pagodão e blocos afro de Salvador. Influenciado por bolero, serestas e música brega, o arrocha — nascido em Candeias — tem se destacado. Suas músicas são executadas principalmente com teclado, bateria eletrônica e saxofone, o repertório é de histórias de amor. A dança, agarradinha.

Arrochar significa apertar ou comprimir. Na pista, duas pessoas dançam coladinhas. O nome se popularizou quando em seus shows os primeiros cantores pediam ao público: “arrocha, arrocha”

O professor Aaron Lopes, doutor e mestre em Etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). explica a origem: “O arrocha é um estilo musical descendente do bolero, ritmo de origem hispânica muito popular no Brasil desde o início do século 20 e muito executado, na Bahia, nas festas de seresta e boemia. O arrocha surge como uma variação de estilização do bolero, a partir de variação rítmica, novas sonoridades e repertório fundamentalmente romântico”.

Alguns dos pioneiros do estilo foram Ademir Marques, Lairton e seus Teclados, Márcio Moreno, Silvano Salles, Pablo e Nara Costa, conhecida na Bahia como a Rainha do Arrocha. Foi a partir das duas primeiras décadas do ano 2000 que passou a ser conhecido nacionalmente. Pablo virou referência e nomes como Tayrone e Latitude 10 também se destacaram.

Agora, “o arrocha deixa de ser uma manifestação cultural exclusivamente baiana para se tornar também um elemento da cultura nacional. Hoje em dia, o arrocha pode ser considerado um tipo de gênero musical de alcance massivo – também chamado de gênero “superpopular” – e atrai públicos das mais diferentes origens, gêneros e classes sociais”, diz o professor Lopes.

Ainda assim, por ser consumido principalmente pelos mais pobres — desde o começo, em serestas do interior baiano — o gênero sofre para ser aceito por algumas classes sociais. O produtor cultural Ítalo França conta que uma das maiores queixas dos artistas é o preconceito. “Quando um artista vai para uma rádio dar entrevista e diz que é cantor de arrocha, a imagem, para muitos, é de um cantor de barzinho com seu tecladista e sem talento, ‘uma bandinha de fundo de quintal’”, afirma.

Apesar do preconceito, o arrocha tem feito parcerias musicais importantes para seu crescimento e até influenciado outros gêneros. É o caso do sertanejo, que encontra na sofrência que constitui o arrocha um de seus principais substratos. A sofrência seria, portanto, uma expressão do arrocha e de sua batida com uma levada sertaneja. “Isso prejudicou artistas e bandas do movimento”, avalia Ítalo.

Nenho — Evanilson da Silva, o Nenho, ganhou esse apelido ainda na infância junto a seis irmãos na cidade de São Félix, no Recôncavo Baiano. Acolhido pela população da cidade e do município vizinho Cachoeira, onde sempre morou, trabalhou com eletrônica e até serviu na marinha, mas preferiu seguir o sonho e viver da música.

Começou a cantar reggae por volta dos 15 anos e logo que o arrocha ganhou nome passou a se apresentar com Nenho e seus Teclados. “A primeira vez que subi no palco foi em um trio no aniversário de Cachoeira”, conta o artista. “A sensação não foi boa não, porque eu estava acostumado a me esconder nos teclados.”

Nenho ficou conhecido em toda a Bahia ao ganhar a música do carnaval 2019, com Desça daí, seu Corno, uma composição que tem mais de 20 anos e ganhou roupagem de arrocha. “A gente gosta de inovar. Colocamos no ritmo, no CD; foi muito bem aceita. Vários artistas, como Péricles, Mumuzinho, Regina Casé, Tiririca e muitos outros, fizeram meme e postaram brincando e cantando. Foi maravilhoso”, conta. “O carnaval de Salvador divulgou a minha imagem; de lá pra cá, onde eu chego sou reconhecido. Pelo menos na Bahia, acho que não tem um lugar que as pessoas não me conhecem.”

Os artistas sofreram bastante nestes últimos anos, justamente por serem os primeiros a parar e os últimos a voltar ao trabalho por causa da covid-19. De acordo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, no primeiro ano sem carnaval foram pelo menos R$ 1,7 bilhões perdidos em arrecadações. Antes da pandemia, Nenho fazia em média 15 shows por mês. Agora faz de 5 a 7. “Esses 2 anos parados deixaram as pessoas sem poder trabalhar, sem seguir as suas vidas, sem pagar as suas contas, então realmente tá pesando bastante”, diz o cantor.

Nenho tem hoje 114 mil inscritos em seu canal do Youtube. Outros nomes que estão no auge são Rafinha, o Big Love, Priscila Senna, Anna Catarina e Malu. “Acredito que estamos vivendo o futuro, pois hoje bandas de arrocha estão nas pontas mais executadas do Brasil ao lado de artistas consagrados de outros ritmos. Isso incentiva crianças e jovens a tentarem a carreira e garante que vão vir novos artistas”, conclui o produtor cultural Ítalo França.


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