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Mulher negra representa movimento LGBTQIA+ em Rondônia

Mãe de dois rapazes adotados e servidora pública na prefeitura de Porto Velho, no Estado de Rondônia, Niedina Gontijo é uma mulher negra e lésbica que atua na defesa dos direitos da população LGBTQIA+ há 24 anos. Foto: divulgação/arquivo pessoal

5 minutos, 48 segundos de leitura

04/04/2022

Por: Felipe Corona

Mãe de dois rapazes adotados e servidora pública na prefeitura de Porto Velho, no Estado de Rondônia, Niedina Gontijo é uma mulher negra e lésbica que atua na defesa dos direitos da população LGBTQIA+ há 24 anos. Foto: divulgação/arquivo pessoal

Mãe de dois rapazes adotados e servidora pública na prefeitura de Porto Velho, no Estado de Rondônia, Niedina Gontijo é uma mulher negra e lésbica que atua na defesa dos direitos da população LGBTQIA+ há 24 anos. “Quando entrei no movimento, ainda era GLS e não tinha visibilidade. Comecei a estudar organizações não governamentais, viajar, participar de seminários e conferências”, diz Niedina. “Era pra me capacitar e fazer a defesa desse mundo novo.”

O trabalho como assistente social em Porto Velho corre paralelo às atividades na ONG Grupo Gay de Rondônia, que desde 2005 é legalizada e ativa no Estado e propõe políticas públicas para o segmento. “Fomos ocupando os espaços dentro dos movimentos sociais, sempre com foco em LGBTQIA+. Estava fazendo faculdade de pedagogia e queria me capacitar. Decidi fazer Serviço Social e sou feliz com esse curso.” Apesar de muitas vezes “a tristeza vir como uma avalanche”, Niedina não se queixa de falta de motivação. “Encontro forças ao ver essa parcela da sociedade tão discriminada. O que mais me sensibiliza é ver as trans do sexo masculino e feminino sendo assassinadas. O segmento LGBTQIA+ sofre demais, desde a família”, afirma.

Preconceito versus conhecimento — Niedina encontrou nos livros o substrato para seu trabalho: capacitação, conhecimento e afeto. “A educação me ajudou muito. Passei a estudar o porquê das lutas sociais, dos movimentos, das organizações. Hoje sou uma assistente social com especialização em gestão social, de políticas públicas e direitos.”

Os desafios têm aumentado. Niedina atribui ao conservadorismo e à intolerância o aumento da tensão e do ódio que resultam em agressões verbais e físicas e a morte de pessoas LGBTQIA+. “O preconceito ficou muito mais forte, mas confronta uma sociedade mais organizada, amparada, protegida, instruída. Quase metade da população de Rondônia é evangélica. Acabamos confrontando os religiosos mais fundamentalistas, pois eles esquecem que o Estado é laico [sem religião].”

Persistência — O Estado de Rondônia já foi o terceiro pior do País para a população LGBTQIA+, com altos marcadores de violência, afirma Niedina. A situação ainda é preocupante. “Onde vejo mais violência é contra trans femininas. Elas são violentadas de todas as formas que você imaginar. Quando tivemos uma comandante-geral na Polícia Militar, fizemos uma grande parceria. A Angelina [Ramires] era muito humana”, lembra. As lésbicas também sofrem com violência, com mortes, assassinadas pelas próprias parceiras. “Nossa sociedade ainda é muito machista, homofóbica e violenta”, diz a assistente social. Ela própria tem acompanhamento psicológico e psiquiátrico para enfrentar o dia a dia.

Entre os muitos episódios traumáticos com envolvimento de policiais e de grupos violentos organizados, como os skinheads, a assistente social lembra de um em que PMs foram punidos por abusar de trans que atuavam em Porto Velho. “Além de estuprar, tomavam seu dinheiro. Descobrimos quem eram, foram punidos, viramos alvo e fiquei com medo dos profissionais da segurança pública.” Na madrugada da décima edição da Parada do Orgulho Gay em Porto Velho, uma trans foi assassinada e seu corpo jogado perto de um atacadista, onde tem ponto de profissionais. “Ficamos abalados, mas seguimos firmes.”

Embora nunca tenha sido ameaçada de morte, Niedina conta que recebeu “avisos”, que era para ela não se expôr. “Não deixa de ser uma ameaça”, diz. “Pensava logo nas minhas crianças, crescendo no meio do mundo LGBTQIA+.”

A ativista reforça: ser LGBTQIA+ é muito difícil. “Não só em Rondônia, como no mundo. Recentemente, comemoramos o aniversário de 51 anos uma amiga que é trans. Ela também é do movimento e três pessoas que discursaram, a felicitaram por estar viva, ter sobrevivido.”

As mulheres e garotas têm uma proteção mascarada. As trans são bem mais expostas por irem pro ponto, atrás da sobrevivência. Falei pra essa mãe que ela nunca desamparasse o filho. Ela me falou que tem medo quando o filho sai de casa. Pensa que nunca mais vai voltar. Sempre o abrace como se fosse a última vez (Niedina Gontijo)

Enfrentamento — Niedina cobra mais ação do poder público, especialmente dos responsáveis por investigar mortes de gays e transexuais rondonienses. “Com o avanço da internet, os grupos de skinheads estão se organizando mais. Graças a Deus já tem alguns meses que não temos mortes violentas de trans. A gente sempre cobra da polícia os casos que acontecem e não são resolvidos.”

A sociedade LGBTQIA+ se sente ameaçada como um todo. “Tenho um amigo que vive enclausurado. Trabalha no Tribunal de Justiça, tem uma vida organizada financeiramente e vive preso por causa da homofobia. Teve um cabeleireiro morto por um vereador em Jaru [cidade do interior; o político acertou a cabeça da vítima com um vaso de planta]. Um caso obscuro, que não tem solução. Isso é pra ver como é difícil um gay viver aqui.”

Não tem como um gay viver em paz em Rondônia e em nenhum lugar do mundo. Pior se for negro; pior se for trans e precisar ir para o ponto para tirar sustento, já que a família abandona e a sociedade vira as costas (Niedina Gontijo)

As políticas públicas para o segmento não têm acontecido, afirma Niedina, e são esquecidas pelos políticos.
“Nos últimos quatro anos, as políticas públicas para os LGBTQIA+ estão paradas. O único avanço que conseguimos foi no estatuto do Instituto de Previdência e Assistência Médica de Porto Velho, que falava que o casal, homem e mulher, poderiam ter acesso aos serviços. Conseguimos que o casal homoafetivo também fosse atendido.”

Tenho de lutar não só pelos LGBTQIA+, mas também pela mulher negra, pelo homem negro, pela pessoa que está em vulnerabilidade social ao lado da minha casa. Tenho que lutar pelas crianças, por mulheres que sofrem violência. Tudo que eu faço é pelo bem-estar do próximo, independentemente de identidade de gênero, cor, origem, religião. Seguimos firmes, apesar das adversidades (Niedina Gontijo)

Com cargos importantes da política local ocupados por políticos da ala mais conservadora, Niedina percebe que a população LGBTQIA+ tem sido silenciada e excluída. “Em Porto Velho, a Secretaria Municipal de Assistência Social virou ‘da Família’. Como não somos considerados ‘família’, não tem política pública. Há políticos que trabalham contra o movimento, dizendo que a gente quer inserir a linguagem neutra nas escolas. Mas temos culpa também, porque essas pessoas foram eleitas. Difícil ter políticas públicas quando o preconceito e a homofobia estão expostos.”


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