Na Perifa

Uma conversa com Angelo Madson Tupinambá, cientista social e comunicador

Na Amazônia paraense, Instituto Idade Mídia estimula a reflexão sobre cidadania

5 minutos, 39 segundos de leitura

12/11/2021

Por: Wellington Frazão, Periferia em Foco

Angelo Madson Tubinambá é um dos principais nomes de educomunicação na Amazônia. Foto: divulgação/Instituto Idade Mídia

Em junho de 2006, o cientista social e indígena Angelo Madson Tupinambá, de 41 anos, fundou o Instituto Idade Mídia. O objetivo era, e ainda é, aproximar a comunicação das pessoas e trazer à tona a reflexão sobre cidadania. Tupinambá explica que a organização funciona de maneira independente e autônoma, baseada em comunicação popular e comunitária e contrária à hegemonia dos meios de comunicação.

Sediado em Belém do Pará e inserido no contexto de lutas pelos Direito Humanos, o Instituto Idade Mídia planeja e desenvolve uma plataforma de cursos e oficinas, além de ações sociais no campo da educomunicação para crianças, jovens e adultos

Tupinambá é um dos principais nomes de educomunicação na Amazônia. Esse conceito — educomunicação — propõe a combinação de educação, comunicação e mídia oferecendo capacitação, conhecimento e experiências práticas em torno do uso e da democratização dos meios de comunicação. Outro ponto importante é o uso das mídias como instrumento de formação das pessoas em espaços educacionais e informativos.

Em uma conversa com o Expresso na Perifa, Tupinambá falou da importância da educomunicação para o reconhecimento das pessoas como detentoras de direitos. Falou também das ações do Idade Mídia, dos povos originários e de direitos humanos.

Como nasceu o Instituto?
Nasce num contexto histórico de popularização do acesso e advento de novas tecnologias de comunicação, informação e conhecimento. Surge no limiar da chamada ‘Era da Informação’ ou Terceira Revolução Industrial, de caráter técnico, científico e informacional, mas, principalmente, como consequência da ação militante de seu fundador. Meu despertar para a comunicação vem desde a infância.

Nascemos na Amazônia, vivemos nela e experimentamos diversas formas da Amazônia em nossa formação multicultural de povo amazônida. Como guerreiro Tupinambá, que pensa a Amazônia como território de nações, que deve lutar por sua independência e soberania, vejo a comunicação popular, comunitária e contra-hegemônica como meio para propaganda e difusão do debate histórico para uma nova consciência de sociedade

A Bike Som Maria Lira FM é um dos meios pelos quais atividades do Instituto Idade Mídia chegam à população. Mas há muitos outros. Foto: divulgação/Instituto Idade Mídia

Como as periferias acessam a educomunicação promovida pela Idade Mídia?
Chega nas periferias e interiores da Amazônia paraense pelas ruas e redes, em diferentes linguagens e formatos. Nos alto-falantes da Bike Som Maria Lira FM e sua frequência 90.1 MHz; as rádios escolares criadas na rede pública de ensino; nos textos e imagens do site; no streaming de áudio digital da rádio ribeirinha Libertadora FM; nos vídeos do Canal IMTV. Também pode chegar através dos cursos e oficinas de formação teórica e habilitação técnica para jovens agentes multiplicadores de comunicação popular e comunitária, com ênfase em áudio digital e podcast.

Como a Idade Mídia trabalha a comunicação comunitária e os direitos humanos?
Trabalhamos com processos comunicativos constituídos no nível de comunidades organizadas, formadas a partir de laços identitários, étnicos, políticos ou por compartilhamento de circunstâncias de vida em comum. Em 2015, lançamos a radioweb Idade Mídia, como extensão da plataforma educativa e para ser a expressão do direito humano à comunicação, a participação popular, construção dos valores da cidadania e a valorização da cultura na Amazônia.

A programação da Idade Mídia visa estimular os receptores da comunicação comunitária a confrontarem sua vida cotidiana com as questões que envolvem a efetivação de sua cidadania. Na última oficina, de rádio popular e podcast, cerca de 40 radialistas participaram das atividades no município de Abaetetuba, distante 126 km de Belém, pelas emissoras locais.

Cidadania não é algo que se ganha, mas que se constrói a partir de sensibilização, conscientização e mobilização de indivíduos transformados em sujeitos históricos cientes de sua própria condição, descobrindo linguagens, a dimensão da mensagem e tendo o cotidiano como ação comunicativa

Qual a relação da organização com os povos originários?
[Os povos originários] Têm amplo destaque em nossa produção comunicativa. A atual sede do Instituto Idade Mídia está localizada no território histórico e ancestral Murukutu, fundado pela nação do povo Tupinambá, em Belém e foi o acampamento militar das forças revolucionárias no período da Cabanagem (1835-1840).
A comunicação com identidade guerreira dos povos indígenas está na programação do Instituto Idade Mídia desde 2016, nas ações de apoio ao Kayapó, no sul do Pará. Somos herdeiros e herdeiras dos que, na luta, forjaram nossa identidade amazônida.

Somos sobreviventes da empresa genocida e etnocida, em sua etapa capitalista somos a dignidade rebelde, o Murucutu insurgente, somos povo declarado extinto, anunciando retomada ancestral e evocando o prenúncio do despertar da consciência individual à nossa condição de pertencimento étnico e classe social.

Como atuam hoje?
Em 2020, alugamos um casarão no Centro Histórico de Belém, onde montamos galeria de arte, biblioteca, cineclube, área de ensaio e treino de artes marciais, ateliê de serigrafia e costura, oficina mecânica, sala de aula, uma Central de Mídia Popular e dois estúdios de transmissão e gravação, mas a pandemia destruiu vidas e planos. Poderia ser o fim das atividades do instituto, porém a esperança renasceu no ventre do território Murucutu, uma grande campanha de apoio financeiro colaborativo aconteceu na internet e os equipamentos e mobília do instituto foram trazidos para o bairro do Curió Utinga, em Belém.

A mudança para o Curió Utinga significa transformação. O Instituto Idade Mídia, se reinventa com site, rádio web e canal de vídeo. Mudança e transformação nos formatos, e modo de produção dos conteúdos digitais. Em outubro, realizamos uma atividade de planejamento estratégico e o site ganhará outros formatos de áudio, vídeo e outras linguagens.

Com empréstimo de dinheiro, compramos um pequeno terreno onde será erguida a sede própria e definitiva do Instituto. Será a comunicação popular sob a égide do Murucutu Tupinambá. A Amazônia é a maior periferia do sistema econômico e político mundial. Somos resistência.


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