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A arte de Beatriz Paiva dá voz a todo um povo e a mulheres

Desafiando estatísticas da população negra, ela foi convidada a exibir suas obras no maior museu do mundo, o Louvre, em Paris. “Temos que falar e representar essa quebra da estrutura, por nossos ancestrais”, diz

4 minutos, 20 segundos de leitura

25/07/2021

Por: Carlos Gouvêa

A artista visual Beatriz Paiva, sobre expor no Museu do Louvre: "Apesar de toda essa conquista e felicidade, também compreendo que a França é um país colonizador (...). Ir pra lá vai ser representar isso também. Representar o que eles negam. Entrar em um sistema fechado, um sistema em que estão expostos aqueles que foram capturados. Os corpos nas pinturas [do Louvre] são de negros em subalternidade; as mulheres, representadas por homens em um sistema patriarcal como se nós fôssemos só mostrar o corpo. Temos que falar e representar essa quebra da estrutura, por nossos ancestrais.” Foto: acervo pessoal

 

Muita gente acredita que a rua é a principal parte da cidade, é nela que os encontros diários acontecem. Foi isso que despertou a arte em telas da paraense Beatriz Paiva, 23 anos, estudante e artista visual.

Mulher preta, lésbica, jovem e periférica, ela retrata cotidiano e afetividade, rompendo fronteiras na construção de força e representatividade. Em outubro de 2022, Beatriz vai mostrar sua arte urbana em Paris.

Desafiando estatísticas da população negra, foi convidada para participar de uma exibição no maior museu do mundo, o Louvre. Sobre isso tudo Beatriz conversou com o repórter Carlos Gouvêa, para o Expresso na Perifa.

De onde vem Beatriz Paiva?

Venho de uma família de pais separados, que são educadores. Uma família de Curuçá, interior do Pará, extremamente católica. Durante muito tempo, teve muitos tabus. A princípio, na adolescência, eu não entendia meu corpo. E apesar de todo racismo que sofri desde pequena não compreendia o que era isso. Sem contar que não me enxergava como uma mulher negra.

Só fui compreender isso tudo um pouco antes de entrar na universidade. E entendi que as diferenças que eu sofria nesse período, na infância e adolescência, eram homofobia. Foi um processo muito doloroso, mas hoje em dia eu posso dizer que minha família me respeita e ama. Estou perto de me formar na universidade e de viver essa oportunidade gigantesca de ir para o Louvre, porque ela minha família, em especial minha mãe, sempre esteve do meu lado.

Quando surge a arte na tua vida?

Desde criança desenho e costumava rabiscar meus personagens favoritos. Depois, surge a arte comigo, porque sempre tive dificuldade de me expressar verbalmente, isso mudou na fase adulta. Em vez de desenhar meus personagens começo a me desenhar.

Você costuma dizer que a arte ajuda no contexto adverso, como é isso?

Justamente por ser lésbica interessada em artes dentro de uma família católica, dentro de uma sociedade que fala que eu não vou ter futuro sendo artista e que tenho que fazer outra coisa na universidade. Uma sociedade que me desvaloriza enquanto mulher. Então a arte, para mim, vem nesse sentido de dar voz e dar voz aos meus sentimentos. Na verdade, a voz não é só minha, a voz é de todo um povo que sofre racismo. Voz de mulheres que sofrem com uma sociedade patriarcal. Assim retrato essa representatividade enquanto mulher, lésbica, negra, nortista.

Além de ter sido convidada a participar de uma exposição no Museu do Louvre, em Paris, você também se candidatou a editais. Como surgiu o interesse pela exposição?

Quando entro na universidade e descubro que para ter uma arte exposta em um museu, em uma galeria, você tem que passar no edital do processo seletivo, eu percebo que não tinha dimensão de tudo isso. Resolvi pesquisar sobre os editais abertos e notei, principalmente aqui em Belém, uma certa inacessibilidade para novos artistas conquistarem espaços. O que tá exposto não são artistas emergentes. Não são mulheres, não são artistas negros. São pessoas que já estão dentro de sistemas fechados.

Foram muitos [editais] e foi uma coisa que me deixou muito frustrada durante muito tempo com o sistema artístico de Belém e do Brasil. As exposições que participo são as exposições independentes, de pessoas que não estão no circuito, que não passam nos editais, mas que têm um trabalho muito potente.

Você acha que isso é fruto das opressões da sociedade?

Acho, porque a maioria das pessoas que a gente encontra nesses lugares são homens brancos e em sua maioria hétero.

Como você define arte urbana?

Eu sinto a arte urbana como salvação, uma euforia que traz paz, para falar a verdade.

Falando de euforia, como é que chegou a notícia do Louvre?

Recebi uma mensagem no Instagram da Vivemos Arte [empresa de agenciamento de artistas nacionais e internacionais], falando sobre a exposição, eu não sei falar em francês por isso vai em português: no “Carrossel do Louvre” (rs). É uma exposição anual e recebi o convite da diretora artística para participar. Fiquei “stalkendo” a pessoa, até descobrir que era verdade, a exposição ia acontecer e as pessoas vão para lá.

Qual a expectativa?

Muito grande! Apesar de toda essa conquista e felicidade que eu sinto, também compreendo que a França é um país colonizador, e que colonizou muitos povos originários da África. Acredito que ir pra lá vai ser representar isso também. Representar o que eles negam. Entrar em um sistema fechado, um sistema em que estão expostos aqueles que foram capturados. Os corpos representados nas pinturas [do Louvre] são de negros em condições de subalternidade; as mulheres, representadas por homens em um sistema patriarcal como se fôssemos só mostrar o corpo. Temos que falar e representar essa quebra da estrutura, por nossos ancestrais.


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