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A liderança feminina que comanda o maior baile funk de Minas Gerais

Conheça a história de Kika: negra, mãe de seis filhos e ativista

4 minutos, 12 segundos de leitura

14/07/2021

Por: Expresso na Perifa

Mulher, negra, mãe de seis filhos, presente e atuante na comunidade, Kika tem 44 anos e foi criada no Aglomerado da Serra. Sua trajetória profissional não é muito diferente da de diversas mulheres da periferia.

Ela já foi cozinheira, recepcionista, faxineira, camareira e copeira. Além de atuar como produtora cultural, é promotora popular em defesas comunitárias e membra do coletivo Observatório das Quebradas.

Se antes Kika se dividia entre empregos fixos e a produção de eventos, desde 2019, quando assumiu a presidência da Associação Comunitária de Moradores da Vila Santana do Cafezal, ela se dedica a trabalhos comunitários, produções de eventos diversos, palestras e consultorias.

Junto com o DJ Marcelo Mattos, a produtora faz acontecer ações de cultura e lazer no Aglomerado da Serra. A parceria de trabalho dos dois é de longa data, desde que começaram a organizar eventos destinados a crianças, pagodes, festas beneficentes e o Baile.

Mãe de seis filhos, Kika é uma liderança reconhecida nacionalmente por seu trabalho. No Aglomerado, é referência em mediação de conflitos, levando até o poder público demandas da comunidade como saneamento básico, calçamento de ruas, coleta de lixo e saúde, entre outras. Ainda na área cultural, é constantemente chamada para compor a curadoria de eventos culturais voltados para a periferia.

Ela nos conta que o machismo é um dos maiores desafios à frente do Baile da Serra. “Hoje a gente já consegue mostrar isso, que uma mulher pode estar à frente de um evento. Eu já saí, assim, do batalhão, chorando. Já saí do batalhão com a minha vida, tipo, parecendo que, sabe, que ia acabar, que eu não queria nunca mais ir lá, por sofrer esse machismo e essa discriminação.”

Kika não é a única representante feminina na luta e no Baile. Sua história se cruza com a de outras mulheres. Ao todo, cinco mulheres negras trabalham diretamente na organização e há mais uma dezena em diferentes atividades nos eventos. Maíra Neiva, advogada popular, é uma delas. “Eu vou pro baile pra me divertir, aí talvez isso deixe a Kika com raiva”, brinca Maíra. “Minha parte de organização está no momento bem anterior, no que envolve questões jurídicas, administrativas e políticas.”

A advogada explica que nos bastidores são as mulheres que dialogam com o poder público, e que também pesquisam sobre funk, que lidam com as questões burocráticas. “Eu tento pensar na importância política do baile em várias esferas da micropolítica e a contribuição na vida daquelas pessoas. Esse é meu papel”, afirma.

A trajetória de Kika nos mostra que mesmo diante de diversos desafios, mulheres negras periféricas continuam rompendo barreiras, e liderando grandes ações.

Sobre o Baile da Serra

Em tempos não pandêmicos, o baile que ocorre no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, é o maior de Minas Gerais. Tem um público médio de 6 mil pessoas. Em julho de 2019, na virada cultural, a festa durou seis horas e atraiu 100 mil participantes. Um recorde.

O evento se chamava Baile do Binário e acontecia aos domingos em uma rua homônima no Aglomerado da Serra. Após uma intervenção policial em julho de 2017, quando um jovem de 14 anos foi assassinado, a atração foi reformulada e tornou-se a primeira da história a obter um alvará de funcionamento.

Por meio de votação popular, recebeu o novo nome: Baile da Serra. Em sua nova fase, todas as edições passaram a ter as licenças necessárias.

Antes mesmo da pandemia do novo coronavírus, o constante acompanhamento dos órgãos públicos e as exigências burocráticas e financeiras já tinham alterado o calendário. O baile não tem mais a edição semanal. Em 2019, só ocorreu quatro vezes.

Gerar renda para a economia local e os artistas também é umas facetas do baile. Além de oferecer lazer, a promoção desses eventos para a juventude, segundo Kika, demonstra o quanto as comunidades periféricas também consomem e produzem cultura.

O baile é autofinanciado. Embora não disponha dos números exatos da movimentação financeira, Kika esclarece que a venda de bebidas ao público tem como objetivo pagar toda a estrutura e os custos de alvará. “Nem sempre a gente vende todas as bebidas. Quando não vende, ficamos no prejuízo, aí tenho que tirar do meu bolso”, diz.

Em termos de geração de emprego e renda, são contratados vendedores de bebidas, seguranças, brigadistas e técnicos de som e iluminação. Empreendedores independentes organizam uma infraestrutura paralela de alimentação e serviços para o público. São barracas de comidas, baleiros e outros comerciantes procurados pelos frequentadores até mesmo antes da festa. É o caso das lojas de roupa e do salões de beleza.



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