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Como a covid-19 prejudica o acesso da periferia às universidades

As inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio 2021 encerraram no último dia 14 de julho e, embora o país esteja progressivamente aumentando a cobertura vacinal, muitos resquícios sociais e econômicos da pandemia continuam a afetar profundamente o setor da Educação

4 minutos, 9 segundos de leitura

25/07/2021

Por: Eduarda Nunes

Nas aulas à distância, a desigualdade fica explicita. “Tem aluno que se estivesse no presencial teria acesso pleno a todo o ensino, mas agora ele, infelizmente, fica prejudicado por não ter conectividade constante", diz o professor e antropólogo Gilson Rodrigues Jr.. Foto: Antonio Scalogna/Unplash

Já são 16 meses (e contando) de transformações em decorrência do isolamento social — e essas mudanças deixam marcas latentes no acesso ao ensino superior de jovens e adultos periféricos. A migração do modelo de aula para as plataformas online evidencia a exclusão digital.

Segundo dados da pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros, a TIC Domicílio 2019, 59% das casas brasileiras das classes D e E não têm acesso à internet e dentre as que acessam essa tecnologia, 85% têm apenas o celular como dispositivo de uso. Geralmente um aparelho é compartilhado entre a família inteira.

INTERNET EM CASA

  • Classes D e E
  • 59% SIM
  • 41% NÃO
  • 5% das que têm SÓ USAM O CELULAR
Fonte: TIC Domicílio 2019

Várias iniciativas, a exemplo da campanha 4G para estudar — que distribuiu pacotes de 4G para estudantes de pré-vestibulares comunitários em todo o Brasil —, fizeram o possível para viabilizar que os estudantes das periferias pudessem continuar seus estudos de alguma forma durante a pandemia. Mesmo assim, o contexto social geral de dificuldades de prevenção ao vírus e de geração de renda pesou mais.

Ainda falando sobre os dados, o Inquérito  Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), revelou que em 2020 houve um aumento de 54% de domicílios em situação de insegurança alimentar em relação a 2018. Atualmente, são 55,2% da população brasileira e 9% do país, ou seja, 19 milhões de brasileiros, estão passando fome.

INSEGURANÇA ALIMENTAR

  • Aumentou 54% em relação a 2018
  • Quase 20 milhões de brasileiros passam fome
  • Isso corresponde a 55,2% da população
Fonte: Inquérito  Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19

Dificuldades estruturais

Para chegar à universidade existe uma trajetória educacional que exige, sobretudo, condições básicas para que o jovem consiga estudar e ter um bom desempenho na escola, nos vestibulares e no Enem, afirma a socióloga Hallana de Carvalho. Além do esforço próprio dos estudantes, a chegada depende também de fatores que vão desde o incentivo familiar até questões estruturais, como o acesso à internet, luz, saneamento básico, espaço adequado para estudo, alimentação etc.. “Para muitas famílias, antes mesmo da pandemia, o acesso à essa estrutura mínima já era precário”, afirma Hallana.

Mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora na área de políticas afirmativas no acesso ao Ensino Superior, Hallana diz que as escolas têm função importante na minimização dessas desigualdades estruturais. Salas de aula, bibliotecas, laboratórios e merendas são um suporte fundamental para quem não dispõe dos recursos mínimos.

As dificuldades estruturais são uma realidade que Gilson Rodrigues Jr. testemunha no dia a dia. Ele é doutor em Antropologia e professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Trabalha atualmente no campus de Pau dos Ferros, interior do estado, e dá aula para estudantes do ensino médio vindos também das zonas rurais do Ceará e da Paraíba. “Temos alunos que, para fazer seus trabalhos, passam o dia no IF porque não têm computador ou acesso à internet, seja por não tem condições financeiras, seja por que na área rural não há cobertura”, conta o antropólogo.

Nas aulas à distância, a desigualdade fica explicita. “Tem aluno que se estivesse no presencial teria acesso pleno a todo o ensino, mas agora ele, infelizmente, fica prejudicado por não ter conectividade constante”, diz Gilson. “Quem é este aluno que vai ser escanteado, marginalizado? É o aluno pobre que geralmente é negro, indígena ou quilombola.”

Políticas públicas

Algumas universidades têm publicado editais para estudantes em vulnerabilidade social, mas ainda há um número expressivo de estudantes que não conseguem se matricular porque não têm internet.

“Existe a necessidade de elaboração de políticas públicas que visem minimizar os efeitos da pandemia nas realizações educacionais de crianças e jovens das classes populares, dando ênfase principalmente aos jovens que cursam o ensino médio”, diz a socióloga Hallana de Carvalho.

O que houve com o Enem?

Segundo o Inep, o Enem 2020, realizado em janeiro de 2021, teve o maior número de abstenção de toda a história do exame com 51,5% e episódios como os de estudantes sendo impedidos de realizar a prova por conta da lotação das salas. Mesmo assim, o ministro da Educação Milton Ribeiro considerou a edição um sucesso e creditou à imprensa parte da responsabilidade no alto número de abstenções. Segundo Ribeiro, houve um trabalho contrário à realização do exame.


  • Campanha 4G para estudar distribuiu pacotes de acesso à internet para estudantes de pré-vestibulares comunitários em todo o Brasil

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