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Livreiro do Alemão: livros dão suporte para sonhar e realizar

Nesta entrevista, o escritor Otávio Júnior fala do poder transformador da literatura

6 minutos, 0 segundos de leitura

31/08/2021

Por: Juca Guimarães

Em seu novo livro infantil, ‘De Passinho em Passinho’, Otávio Júnior volta a falar do cotidiano das crianças e da riqueza criativa das comunidades. O mote é o passinho, dança que nasceu do funk, na periferia do Rio de Janeiro

Reportagem de Juca Guimarães, em São Paulo

 

Um episódio na infância de Otávio Júnior foi determinante na construção do adulto que ele é hoje, aos 38 anos. Um dia, a caminho de uma partida de futebol com outras crianças, Otávio topou com um livro jogado fora — era uma edição de 1963 de Don Gatón, da coleção Peteleco.

Aquele encontro aos 8 anos de idade foi o primeiro passo na direção de ser leitor e escritor apaixonado e comprometido com as histórias da periferia, além de ativista da leitura. “Eu guardo esse livro também como símbolo de resistência, porque a literatura é uma forma de resistência tanto para os fazedores quanto para os leitores”, diz o autor.

Otávio é conhecido como Livreiro do Alemão por causa de seu engajamento em projetos de formação de novos leitores e clubes de leitura, sobretudo em favelas dos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Em 2011, saiu o primeiro livro – O Livreiro do Alemão (Panda Books) —, que conta sua trajetória. De lá para cá já foram sete, entre eles o Da Minha Janela (Companhia das Letrinhas), que em 2020 levou o prêmio mais tradicional do mercado literário brasileiro, o Jabuti.

Novo rebento de Otávio Júnior, De Passinho em Passinho tem lustrações da artista Bruna Lubambo. Passinho é uma dança que deriva da cultura funk. Sua origem está nas comunidades cariocas, nos anos 2000. E desde junho de 2018 tem o título de patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Foto: Companhia das Letras/Divulgação

Uma das principais características da literatura de Otávio Júnior é o retrato do cotidiano de comunidades e favelas. Ele busca um olhar novo, apurado e próximo da realidade das crianças – uma realidade que muitas vezes é dura. Dessa forma, consegue tocar um público ainda mais amplo. Nesta entrevista, o autor fala de inspiração, da importância de continuar vivendo na favela em que nasceu e do poder transformador dos livros.

Quais os livros que mais chamaram a sua atenção quando você era criança?

Tem o Menino Maluquinho, do Ziraldo, que é um clássico da literatura infantil. Tem também O Menino do Dedo Verde, que aborda essa questão da preocupação com a ecologia. Introduz um senso crítico e de preservação do meio-ambiente. Foi escrito por Maurice Druon.

Na sua infância nos anos 1990, ler livros te ajudou na escola? Contribuiu para melhorar a compreensão do mundo à sua volta?

A leitura foi fundamental para o meu desenvolvimento. Ela ajudou bastante com essa coisa do pensamento lógico. Melhorou o meu raciocínio. Melhorou, inclusive, o meu desempenho nos esportes. Eu tinha uma concentração melhor e uma visão mais ampla dos movimentos.

Ajudou a superar a timidez?

Sim, eu percebia nitidamente que havia uma grande potência nos livros e que eu poderia usar o gosto pela leitura para adquirir conhecimento e evoluir.

Os livros ampliam a imaginação das crianças, isso aconteceu contigo?

Acho que foi mais que isso. Os livros me deram um suporte tanto para sonhar como para realizar coisas. Para ir atrás de bibliotecas públicas, bibliotecas comunitárias e livrarias. No primeiro momento em busca de aventuras literárias e, em um segundo momento, em busca de soluções para levar esses livros até as pessoas nas comunidades.

Como foi o processo do leitor que virou autor?

Eu vejo como algo natural. Ler me dava muito prazer. Eram momentos de magia, de alegria, de encantamento e de muita emoção. Eu queria muito escrever e contar as histórias. Ler me ajudou a entender a engrenagem dos livros, a forma como eu me envolvia com a leitura e com os personagens. Foi importantíssimo ler para que eu pudesse desenvolver internamente minhas questões socioemocionais. Trabalhar o amor, a solidariedade, a sociedade e a pensar no outro. Eu passava manhãs e tardes lendo e escrevendo nas bibliotecas da cidade.

E como surgiu a ideia de criar bibliotecas comunitárias na Penha e no Alemão?

Veio do sentimento e do desejo de compartilhar amor, de compartilhar conhecimento. De aproximar as pessoas do objeto livro. Os projetos foram muito bem acolhidos. De livro em livro e de atividade em atividade, eu vi que poderia crescer ainda mais com lazer, conhecimento e amizade. Também foi um laboratório para ver como o livro mudava a vida das pessoas.

Como foi isso?

Foram experimentações estéticas relacionadas à escrita, experiências sociais observando como as pessoas reagiam ao contato com as histórias. Foi então que me veio a ideia de criar histórias onde as pessoas pudessem se sentir representadas. Onde título, os ambientes, as ilustrações tivessem relação com suas vidas.

Ou seja, que elas percebessem que eram histórias feitas para elas.

Isso, exato. Depois eu percebi que era um trabalho muito híbrido. Ao escrever essas histórias com as minhas vivências periféricas, com histórias e experiências das favelas, que eu ouvi e presenciei, também notei que pessoas de fora da favela, por meio desses livros, também tinham ali um meio de conhecer esse universo.

Você cresceu no Complexo da Penha. Ainda mora na favela?

Sim. Eu acho que é importante ter essa presença no território pela questão de pensar numa transformação e estar dentro para fazer com que de certa forma evoluam e ver de perto isso ocorrer e usar também o território como inspiração para a construção das histórias.

Como é a relação com as crianças da comunidade?

Eu interajo muito com as crianças da favela. Estar perto, estar junto, observar. Entender as motivações para leitura. Elas inspiram minhas criações. Estou com elas nos clubes de leitura do Complexo do Alemão, em outras atividades, nas visitas às escolas antes da pandemia do entorno. Tenho essa preocupação de estar sempre perto e observar. Movimentos, atitudes, gestos.

Você tem filhos?

Tenho um filho pré-adolescente de 13 anos que também é uma inspiração para os meus projetos literários e sociais. É um desafio desenvolver projetos de leitura ou que incentivem a leitura para crianças dessa idade, porque outras linguagens as atraem. Minha ideia é fazer uma convergência dessas linguagens para a literatura.

Eu penso muito nesses leitores e nos não leitores das regiões periféricas, porque muitos não descobriram a leitura por problemas de incentivo, de mediação e de influenciadores. Até influenciadores de outras áreas, que não entenderam sua importância e não incentivam leitura, visitas a livrarias. Penso muito em projetos de plataformas para que essas pessoas se conectem com a leitura de uma maneira bem agradável, dinâmica.

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