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Morte de Kathlen é resultado do projeto opressor da PM do Rio

‘Precisamos encarar as vidas perdidas como consequência de um projeto articulado desde os tempos da corte portuguesa’

3 minutos, 19 segundos de leitura

24/07/2021

Por: Marcos Furtado

A designer de interiores Kathlen Romeu foi atingida por um tiro de fuzil durante uma ação policial na comunidade do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio. Foto: Instagram

Um pé de café, outro de cana-de-açúcar, duas armas de fogo que se cruzam e uma coroa. São esses os elementos que compõem o escudo da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro. Com mais de 210 anos de existência, a instituição policial do Rio tem nessa marca os indicativos de sua origem, em 1809, e da sua lógica de trabalho, que mata moradores de favelas e de periferias.

Uma mostra da letalidade nos procedimentos da PM se deu no dia 8 de junho de 2021, quando a designer de interiores Kathlen Romeu foi atingida por um tiro de fuzil. Ela morreu durante uma ação policial na comunidade do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio. O caso foi parar nas manchetes de jornais e portais de notícia com um agravante: a jovem estava grávida. O bebê, com pouco mais de três meses de gestação, também não sobreviveu. Poucas semanas antes, Kathlen havia se mudado para fugir da violência na região. Sua avó, Sayonara Fátima, me disse durante uma entrevista feita por telefone que recomendava à neta não visitá-la na comunidade pelo mesmo motivo.

Esse e outros assassinatos mostram que o direito de ir e vir foi negado para a população negra e pobre do Brasil. É assim em 2021, foi assim em 1809: a PM opera para que o sistema opressor funcione contra a população periférica. Seu escudo, descrito no início deste artigo, anuncia a missão da polícia.

Os pés de cana-de-açúcar e de café representam a propriedade da elite que dominava a hierarquia social na época do surgimento da corporação policial. A Guarda Real de Polícia da Corte, primeira denominação dada à Polícia Militar e estampada no escudo por meio da sigla GRP, faz menção à proteção que seria direcionada à corte portuguesa, recém-chegada no Brasil, e a seus aliados, donos dos engenhos de cana-de-açúcar e de café. Há também uma coroa e duas armas no símbolo. Elas não deixam dúvidas sobre quem foi (e ainda é) favorecido pelo serviço policial. A proteção armada à elite portuguesa e a seus aliados se justificava pelo medo de que a população negra escravizada se revoltasse como aconteceu no Haiti em 1804 – cinco anos antes da fundação da PM.

A polícia do Rio é a que mais mata no Brasil. Em 2018, das 6.160 mortes em ações policiais, 1.534 foram no estado fluminense.

A liberdade dos negros deixa os brancos arrepiados. Mesmo após a “abolição” – com todas as aspas possíveis – da escravatura, a Polícia Militar se manteve sendo um instrumento para segregar e forçar a população negra a viver em morros e em regiões afastadas. Ficando às margens de centros urbanos, as periferias são desassistidas… Não, pior, são prejudicadas pelo Estado que age derramando sangue de negros, pobres e favelados. Melhor seria se elas fossem apenas esquecidas.

A hemorragia estrutural da PM não para. A polícia do Rio é a que mais mata no Brasil. Em 2018, das 6.160 mortes por meio de ações policiais, 1.534 foram no estado fluminense, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em outros termos, a cada quatro vidas tiradas pela polícia, uma foi no Rio.

Em vez de justificar essa situação por meio da incompetência policial, precisamos encarar as vidas perdidas como os resultados de um projeto articulado desde os tempos da corte portuguesa. A Guarda Real de Polícia da Corte ou Polícia Militar, como preferirem chamar, surgiu para manter os pobres e negros às margens da elite.

Há de chegar a hora em que uma avó não vai chorar pelo sangue de sua neta, como ocorreu com a dona Sayonara e a Kathlen. A revolução que o Brasil e o Rio de Janeiro precisam há mais de 210 anos partirá da favela.

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