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Na pandemia, trabalhadoras enfrentam ônibus cheio e segurança precária

A realidade de quem vive na periferia quase nunca está em sintonia com as condições de isolamento. Nesse vaivém, mulheres sofrem mais

4 minutos, 12 segundos de leitura

23/07/2021

Por: Julia Santiago

A professora Iris Plin: uma hora e meia para chegar no Grajaú e boa parte do salário gasto com transporte. Foto: Arquivo Pessoal

Sair de casa, do trabalho ou de algum outro refúgio só quando o ônibus se aproxima para não ficar sozinha na parada de embarque e/ou evitar aglomeração e qualquer tipo de assédio. Essa é só uma das estratégias usadas pelas mulheres para driblar os obstáculos de um vaivém que não costuma ser tranquilo.

Na pandemia (e não só, mas piorou com a redução das frotas), elas enfrentam ônibus cheio e segurança precária. A realidade de quem vive na periferia quase nunca está em sintonia com as condições de isolamento. É preciso sair para trabalhar.

No rosto, uma máscara PFF2na bolsa, um frasco de álcool em gel — itens fundamentais no deslocamento. Uma vez dentro do ônibus, é hora de buscar o lugar menos aglomerado, perto da janela e longe do vírus e de assediadores. Esse medo se soma a efeitos da pandemia que atingem com mais força a população periférica, para quem a dificuldade de acesso à saúde e a remédios é maior e que, por vezes, vive em condições que dificultam o isolamento social, em residências pequenas e onde muitas pessoas vivem juntas.

Moradora do bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, a trabalhadora doméstica Maria Queiroz, de 50 anos, nunca parou. Na capital paulista, sua atividade é considerada serviço essencial. “Não dá para negar que a tensão tomou conta, ainda mais lembrando da família que fica em casa compartilhando a aflição vista nos telejornais”, diz Maria. Ela continua a sair de casa todos os dias pouco antes das cinco da manhã e chega ao trabalho por volta das sete meia, na República, zona central da cidade. O percurso inclui ônibus, metrô e uma pequena caminhada.

Já a professora Íris Plin, 42 anos, mudou o meio de locomoção. Íris vive no Sacomã, também na zona sul, e sempre usou transporte público. Na pandemia, porém, passou a gastar mais ao chamar carros de aplicativo; quando pode, aproveita a carona de colegas e vizinhos. “Boa parte do meu salário eu gasto só com transporte, mas eu tenho que pensar no futuro também”, diz a professora.

Lecionando em duas escolas da rede pública, pela manhã Íris leva menos de 20 minutos para percorrer o caminho de casa até São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo. À tarde, quando precisa atravessar a cidade para ir ao Jardim Eliana, no Grajaú, o tempo em trânsito é de uma hora e meia. Ela conta que muitas vezes chegou atrasada e que deseja conseguir ser transferida para uma escola mais próxima de casa no fim de 2021.

O volume de corridas por app aumentou 75% entre os que recebem até dois salários mínimos. Encolheu 54% entre os que têm renda maior que cinco salários mínimos

De fevereiro de 2020 a fevereiro de 2021, em São Paulo (SP). Fonte: 99

Desigualdades

Uma pesquisa recente da 99, empresa de mobilidade e conveniência, aponta que entre fevereiro de 2020 e fevereiro de 2021 o volume de corridas por aplicativo realizadas pela parcela mais pobre da sociedade aumentou 75% em São Paulo. São levadas em conta as famílias que recebem em média até dois salários mínimos. A desigualdade social chama atenção porque as corridas entre classes com mais poder aquisitivo caíram 54% na mesma cidade e em período igual. Neste caso, o público avaliado recebe mais de cinco salários mínimos — e, em boa parte, teve melhores condições para trabalhar de casa.

A pandemia de coronavírus trouxe à tona muitos debates no âmbito da mobilidade urbana. Entre os assuntos que mais mobilizam os especialistas estão a segurança no transporte público e a desigualdade socioespacial. Embora não seja possível afirmar se o contágio ocorreu no percurso, no local de trabalho ou na moradia do trabalhador, o fato de muitas pessoas de bairros com altos índices de infecção precisarem se deslocar pode ter ligação não só com o espalhamento, mas também com a concentração de casos nessas regiões — o que exige cuidados redobrados.

Até o final de 2020, na linha de frente do combate à pandemia, 3,9 milhões de profissionais da área da saúde intensificaram suas rotinas. Além deles, profissionais dedicados a funções essenciais, nos setores de serviços e abastecimento, dependem do transporte coletivo, considerado um dos principais focos de contaminação.

A crise revelou caminhos diferentes, mas que já se desenhavam antes da pandemia. Em vez de grandes inovações ou de tecnologias disruptivas, a sociedade de hoje se mostra aberta a meios acessíveis, já existentes e sanitariamente seguros. A tendência que se fortalece nessa nova dinâmica é a mobilidade mais acessível, com uma demanda flutuante, conforme o que se adaptar à necessidade. Neste momento, a preservação da saúde é prioridade para aqueles que precisam sair de casa.

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