Mobilidade para quê?

Deslocar-se também é desafio para mulheres

Permitir o aumento da participação feminina nos planos de cidades e mobilidade é o primeiro passo.

2 minutos, 55 segundos de leitura

16/03/2021

mulheres na mobilidade
Foto: Getty Images

Pensar a mobilidade urbana no contexto das mulheres sugere algumas reflexões. Uma delas é sobre a forma e a necessidade dos deslocamentos. Será que é igual para homens e mulheres? A Política Nacional de Mobilidade Urbana tem o papel de orientar essa agenda com os municípios do País, enfatizando alguns dos seus objetivos, como redução das desigualdades, promoção da inclusão social, além do acesso a serviços básicos, como saúde, educação, lazer e trabalho. Assim, partindo da premissa de que o direito à mobilidade é um dos componentes do acesso à cidade, seu desenho precisa considerar gêneros, classes sociais, sexualidade e raça. E, nesse contexto, a plataforma Connected Smart Cities & Mobility vem fomentando ações para a construção das cidades por meio do envolvimento dos atores do ecossistema. E aumentar a participação feminina nesse trabalho também está no propósito.

Contextos

Temos um cenário em que o planejamento urbano acontece com base na igualdade entre todos, tendo como ponto de partida os dados de mapeamento da demanda geral do transporte. E o resultado disso é a desigualdade no acesso, sobretudo para as mulheres negras e pobres e que residem nas áreas periféricas.

Esse nivelamento da oferta dos serviços mostra uma realidade preocupante, alertando os envolvidos quanto à implementação das políticas públicas para o segmento, visto que entender as várias jornadas das mulheres passa também pelo desconstruir. 

O que os deslocamentos revelam?

A Pesquisa Origem e Destino (OD), do Metrô São Paulo, mostra que as mulheres fazem mais viagens motivadas por educação e saúde, em que os meios mais usados são o transporte coletivo ou a pé.

O estudo aponta aumento de 10% nos deslocamentos desse público no transporte coletivo, superando o índice do gênero masculino, que diminuiu 3% no período de dez anos, sendo que, no metrô, elas já representam 56% dos passageiros transportados.

Por que falar da segurança?

No contexto das mulheres na mobilidade, a forma de ocupação e a segurança dos espaços públicos são fundamentais. A pesquisa ‘Viver em São Paulo: Mulher’, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, mostra que o transporte público permanece como o local em que as mulheres sentem maior risco de sofrer algum tipo de assédio (46%); seguido da rua (24%). 

No contexto do País, dados do Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostram que 97% das brasileiras com mais de 18 anos já passaram por situações de assédio sexual no transporte público, nos carros por aplicativo ou em táxis. E 71% delas conhecem alguma mulher que já sofreu assédio em espaço público.

Como quebrar esses ciclos

O processo ‘antigo’ de pensar as cidades e a mobilidade e acessibilidade acentuam a violência contra a mulher e perpetuam ciclos de pobreza, refletindo na limitação do acesso às oportunidades educacionais e profissionais, por exemplo. A sociedade não pode mais conviver com uma realidade como a apontada na pesquisa da organização internacional ActionAid: 70% das brasileiras têm medo de andar nas ruas, independentemente do horário.

Assim, inserir definitivamente essa pauta como prioridade das políticas públicas, permitindo o aumento da participação feminina nos planos de cidades e mobilidade, é o primeiro passo. O caminho é a promoção de ações que possam garantir direitos e que reduzam essa desigualdade histórica.”

 

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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