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Mobilidade para quê?

Mulheres no transporte: Elas enfrentam mais desafios em seus deslocamentos

Público feminino tem rotina diferente da dos homens e demanda ações de transportes mais focadas em suas necessidades

Daniela Saragiotto

05/10/2020 - 7 minutos, 15 segundos


Mulheres no Transporte desafios para se deslocar
Rotina das mulheres, principalmente das que possuem filhos, é marcada por múltiplas viagens diariamente. Foto: Getty Images

Em março deste ano, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU), fez um levantamento para entender melhor como as mulheres paulistanas se movimentam e quais são os desafios das mulheres no transporte.

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A conclusão do estudo, batizado de “Mulheres e seus deslocamentos na cidade: uma análise da Pesquisa Origem e Destino, do Metrô”, demonstra um comportamento que é comum em todo o País: o público feminino faz mais viagens que os homens por meio do transporte coletivo ou a pé – ou uma combinação dos dois – e as principais motivações são, além de trabalho, compromissos com educação e saúde. 

O número total de viagens produzidas pelas pessoas que residem na cidade de São Paulo, em 2017, foi de 24,9 milhões, de acordo com a última pesquisa Origem e Destino, naquele mesmo ano, feita pelo Metrô de São Paulo. Dessas viagens, 50,6% (12,6 milhões) foram feitas por mulheres, que, por sua vez, representavam, em 2017, mais da metade (53,1%) da população paulistana. 

O fato de contabilizarem mais deslocamentos que homens acontece, segundo a pesquisa, por causa de funções domésticas, como levar os filhos à escola, acompanhar integrantes da família ao médico ou ir ao mercado, entre outros exemplos.

Aqui, é importante lembrar que o público feminino ainda acumula, por semana, em média, 3,1 horas de trabalho a mais que os homens com cuidados com a casa, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo IBGE em 2019.

Modelo masculino

De acordo com Clarisse Cunha Linke, diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP), quando fazemos recortes por gênero, raça ou classe social em pesquisas como a mencionada, percebemos o quanto a mobilidade varia.

“As mulheres fazem uma variedade de deslocamentos todos os dias, e, normalmente, usam o transporte público e caminham. Já para o público feminino negro, o comportamento é ainda mais específico”, diz. Os homens, segundo ela, possuem uma rotina de deslocamento mais linear, viajam em horários de pico e são maioria no transporte particular, de maneira geral.

Nesse contexto, é de se espantar que todas as ações sobre mobilidade ainda levem em consideração esse deslocamento-padrão, realizado, sobretudo, pelo público masculino.

“É preciso que o sistema envolvido em mobilidade compreenda as necessidades de seus usuários, como mulheres, crianças e todos os demais. Se pensarmos que a integração entre os transportes, por exemplo, não leva em conta essas inúmeras viagens que caracterizam o deslocamento feminino, percebemos que elas não estão sendo atendidas no dia a dia”, afirma Linke.

Mas há outros obstáculos, como dificuldade em transitar pelas calçadas com carrinhos de bebê ou de compras, altura dos apoios dentro dos transportes, falta de segurança e de iluminação nas vias e inúmeros outros que dificultam o ir e vir das mulheres.

Desvendando a mobilidade feminina

Renda, localização de suas residências, idade, grau de instrução e atribuições familiares são fatores que alteram os tipos e os motivos do deslocamento feminino, de acordo com o estudo “Mulheres e seus deslocamentos na cidade: uma análise da Pesquisa Origem e Destino, do Metrô”, da Prefeitura de São Paulo e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU).

De maneira geral, o transporte coletivo é predominante, com uso cada mais frequente, de acordo com o aumento da idade: seu maior percentual se concentra em mulheres entre 18 e 29 anos, representando 57% das viagens femininas nessa faixa etária.

As mulheres com maior renda possuem padrões de deslocamento muito parecidos aos dos homens da mesma faixa etária. “O que se nota, sobretudo entre mulheres brancas, é que, quanto mais ascendem socialmente, mais predominante será o uso do transporte particular, principalmente carro”, diz Clarisse Cunha Linke, diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP).

Fonte: Metrô. Pesquisas Origem e Destino 2017. Elaboração: SMDU/ Geoinfo

Oposto ao que ocorre com as mulheres de baixa renda, cujo padrão é diferente dos homens da mesma classe social: enquanto elas se deslocam via transporte coletivo e a pé, eles utilizam, sobretudo, o transporte individual.

Ter filhos é outro fator que influencia diretamente a mobilidade feminina: de maneira geral, as mulheres com filhos entre 5 e 9 anos são as que mais realizam viagens a pé (44%), seguido pelo transporte coletivo (29%), como mostra o gráfico na página 2. “Esse comportamento é resultado das diferentes funções que o público feminino exerce na família e ele se repete nas mulheres que saem de casa para trabalhar”, diz Linke.

Ainda de acordo com o estudo, para os homens, o fato de ter filhos nessa mesma faixa etária não altera tão significativamente o modo e o motivo predominantes do deslocamento: modo individual (51% do total), motivado pelo trabalho.

Fonte: Metrô. Pesquisas Origem e Destino 2017. Elaboração: SMDU/ Geoinfo

Falta de segurança nas ruas e assédio são problemas comuns para as mulheres no transporte público

Insegurança, medo e assédio ainda são, infelizmente, palavras associadas aos deslocamentos femininos, e isso ocorre em diversos modais. Para poder compreender alguns dos desafios das mulheres em sua locomoção, o Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Locomotiva realizaram, em 2019, uma pesquisa com 1.081 brasileiras que usam transporte público e por aplicativo. Desse total, 97% dizem já ter sido vítimas de assédio em meios de transporte. Entre as ocorrências mais apontadas estão olhares insistentes, cantadas, comentários de cunho sexual, passadas de mão e até mesmo “encoxadas”.

O levantamento também revela que, para as mulheres que trabalham e/ou estudam, o tempo gasto no deslocamento entre sua casa e o trabalho/instituição de ensino é um fator decisivo em suas vidas: para 72% delas, esse fator determina se irão aceitar um emprego ou permanecer nele. Quase metade das entrevistadas (46%) afirma não se sentirem confiantes para usar os meios de transporte sem sofrer assédio.

O medo também é presente na rotina das ciclistas. A bicicleta ainda representa 0,2% dos deslocamentos das mulheres na cidade de São Paulo – e 1% para homens –, mas é um modal com muito potencial para avançar, principalmente no cenário pós-pandemia. “É muito comum que as ciclistas mudem seus trajetos e pedalem muito mais para não passar por locais desertos e perigosos, como viadutos de travessia em estradas, ruas pouco iluminadas, becos e vielas”, diz Renata Falzoni, arquiteta, jornalista e cicloativista. 

De acordo com ela, a bicicleta é um meio de transporte que tem muita aceitação pelas mulheres e se encaixa em seu perfil de deslocamentos, mas a questão da segurança ainda é um ponto de atenção. “Basta ver em ciclovias com boa estrutura e muita circulação de pessoas, como as da Avenida Faria Lima e Paulista, que registram número de mulheres muito maior que o de homens”, diz ela.

O problema da falta de inclusão na mobilidade, segundo Falzoni, é que as necessidades das mulheres não chegam até as instâncias finais dos projetos. “No início das discussões, como em consultas públicas e outros fóruns, as necessidades das mulheres, bem como as de idosos e adolescentes, aparecem. Mas, nas tomadas de decisão, essas demandas somem”, comenta a cicloativista.

Para Linke, falta um olhar mais inclusivo nas pessoas envolvidas nessas discussões. “Se não formos capazes de entender melhor o público a que o transporte serve no Brasil e suas necessidades, continuaremos reproduzindo um modelo desigual, que não promove inclusão nem proporciona bem-estar a quem o utiliza”, afirma Linke.

Comportamento das mulheres no transporte durante a pandemia

Para entender como a pandemia impactou a mobilidade das mulheres na periferia, a 99, empresa de tecnologia voltada para a mobilidade urbana, realizou uma pesquisa cruzando o estudo Origem e Destino, do Metrô, e dados próprios coletados em julho. O levantamento, batizado de “Como as periferias se reconectam com a cidade”, ouviu mulheres que residem em regiões periféricas de quatro capitais do País: São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Salvador.

Algumas descobertas: 

– 57% das mulheres afirmam estar usando apps com maior frequência, percentual que sobe para 65% em Salvador

– 44% delas afirmam que o principal motivo para escolha desse meio de locomoção foi a maior proteção contra a covid-19 

– 42% das moradoras nas regiões pesquisadas dizem que não puderam cumprir o isolamento social

– 54% do público feminino afirma que gostaria de usar com maior frequência o serviço de transporte por aplicativo

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