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Mobilidade para quê?

Carona compartilhada: demanda por apps aumenta na pandemia

Opção é mais econômica e pode reduzir congestionamentos e emissões de gases causadores de efeito estufa na atmosfera

Daniela Saragiotto

10/11/2020 - 5 minutos, 51 segundos


carona compartilhada na pandemia, pessoas dividem carro usando máscara
O serviço também permite que se estabeleçam novas relações sociais. Foto: Getty Images

A pandemia da covid-19 alterou os hábitos das pessoas em diversos segmentos da sociedade. Nos transportes, uma das muitas mudanças registradas foi a migração de passageiros do transporte público para outros modais. Uma pesquisa do Moovit realizada no mês de agosto revelou que, antes da pandemia, os serviços de carona compartilhada eram a principal opção para 3% dos brasileiros, percentual que subiu para 10% atualmente. O estudo revela  ainda que, em cidades como Belo Horizonte, o serviço cresceu sete vezes, enquanto, em Recife e em Porto Alegre, a procura foi cinco vezes maior que a registrada antes da pandemia.

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Na BlaBlaCar, aplicativo de carona compartilhada que completa cinco anos de presença no Brasil em dezembro, foram registrados 173 mil novos usuários somente em agosto. “Nos seis primeiros meses de 2020, foram 8,9 milhões de caronas oferecidas, crescimento de 58%, comparado com o mesmo período de 2019”, diz Ricardo Leite, diretor-geral da BlaBlaCar no Brasil. Desde o início da pandemia, o app contabiliza 30 mil novos usuários por semana, sendo que os trajetos mais comuns são trechos das regiões Sul e Sudeste do Brasil, ligando principalmente capitais ao interior, além da região Nordeste, em especial entre os Estados de Sergipe e Bahia. 

No Bynd, app de caronas corporativas, o movimento é parecido. “Tivemos aumento de 12% no faturamento desde março. Até criamos um e-book para ajudar as empresas com o planejamento da volta gradual, baixado por mais de 120 empresas no nosso site”, diz Gustavo Gracitelli, sócio-fundador e CEO da empresa. De acordo com ele, a pandemia tem contribuído para que  pessoas e empresas optem por essa forma de transporte. “Nosso perfil de usuário é o funcionário que busca reduzir seus custos com deslocamentos e o risco de contágio da covid-19, já que a carona é significativamente mais segura que os transportes coletivos”, diz Gracitelli. A plataforma faz parcerias com empresas de todos os portes e cria uma rede exclusiva e fechada, liberando acesso a todos os funcionários.

Economia e vantagens ambientais

Entre as vantagens apontadas pelos usuários de carona compartilhada está a economia. Apenas para ter uma ideia, uma viagem pela BlaBlaCar da cidade de São Paulo até Campinas, interior do Estado, pode ser encontrada a partir de R$ 15 – no dia 19 de outubro, as opções disponíveis variavam entre R$ 15 e R$ 30, dependendo do horário de saída e outros requisitos, como pontuação do motorista.

Uma passagem de ônibus custa, em média, R$ 36,50. Já ir de São Paulo até a cidade do Rio de Janeiro, na mesma data, variava entre R$ 65 e R$ 90. De ônibus varia de R$ 90 a R$ 150. “Além de possibilitar redução de até 75% para o condutor e de 30% a 50% para os passageiros, as caronas promovem experiências sociais e contribuem para o meio ambiente.

Um estudo de 2019 feito pelo instituto francês Le Bipe mostrou que 1,6 milhão de toneladas de CO2 deixaram de ser lançadas na atmosfera graças à eficiência das caronas compartilhadas”, diz Leite. Ainda segundo ele, no Brasil, as caronas lançam 33% menos gás carbônico na atmosfera, na comparação com outros meios de transporte.

Já no caso do Bynd, a empresa contratante é quem paga e os funcionários apenas desfrutam do serviço, oferecido como um benefício. “As caronas ocupam assentos livres dos carros que já trafegam nas ruas, aumentando a eficiência desses veículos. Isso reduz os congestionamentos, diminui as emissões de poluentes e melhora a experiência de deslocamentos das pessoas”, afirma Gracitelli.

Experiência de quem usa

A produtora de eventos Sarah Lopes utiliza, há mais de três anos, o app da BlaBlaCar para seus deslocamentos entre Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, onde mora, e a capital paulista, onde trabalha. “Tenho muitas reuniões na capital até a data dos eventos; então, a facilidade da carona me ajuda muito. E viajar dessa forma é sempre mais ágil que de ônibus, pois não é preciso ir até a rodoviária”, conta. Os valores também pesam na decisão. 

“É uma economia significativa, sem dúvida, principalmente para quem usa muito como eu”, conta. Mesmo sem nunca ter tido episódios negativos sérios – uma vez teve de fazer uma observação sobre a velocidade, que foi atendida pelo condutor –, ela segue critérios de segurança. “Não viajo à noite nem de madrugada, escolho sempre duas pessoas no banco traseiro e sigo todas as recomendações da empresa.”

A advogada Fernanda Salvador também é usuária do BlaBlaCar, há três anos. “Uso quando viajo para audiências. E, quando passei um mês trabalhando na região Sul do Brasil e muitas rodoviárias estavam fechadas, só usei o aplicativo”, explica. Além da economia, ela destaca outro aspecto que a agrada na carona compartilhada. “Sou fã da ideia de compartilhar, de diminuir o trânsito e, também, da solidariedade entre as pessoas, um aspecto que a pandemia reforçou. E tem muitas famílias que, hoje, se sustentam trabalhando dessa forma”, conta. Sobre segurança, ela recomenda fazer contato antes com quem vai oferecer a carona, além de ler todos os comentários na plataforma. “Não é totalmente garantido, mas acho que ajuda. Nunca passei por nenhuma situação difícil”, diz.

A secretária executiva Sheena Jesus usa o Bynd desde 2017, quando a Sanofi, empresa em que trabalha, firmou parceria com a plataforma. “É muito seguro porque participam apenas funcionários da mesma empresa. Conheci muita gente que fazia meu trajeto e, entre 2018 e 2019, usava quase todos os dias”, diz. Ela conta que se sente muito segura, porque a empresa dá todo o suporte. “E a Sanofi estimula muito o uso do serviço, por causa dos benefícios ambientais e para o trânsito, além de promover integração entre os funcionários”, completa.

Estudo mostra como as empresas influenciam os congestionamentos

Em abril deste ano, foi lançada a primeira edição do Índice de Mobilidade Corporativa, estudo que analisou as políticas de mobilidade de 16 grandes empresas e a rotina dos seus mais de 18,5 mil trabalhadores em São Paulo e região metropolitana. A pesquisa, idealizada pelo Bynd, contemplou políticas de transporte público, tempo gasto no trajeto, estacionamento, incentivo a carona compartilhada, home office, uso da bicicleta, entre outros pontos. Uma de suas conclusões é que as políticas das empresas não têm contribuído para melhorar a mobilidade de São Paulo. Confira outros resultados:

  • 6% das empresas disponibilizam ônibus fretado gratuito
  • 13% viabilizam desconto parcial no vale-transporte
  • 38% oferecem algum desconto no transporte fretado
  • Nenhuma das companhias avaliadas viabiliza, simultaneamente, programa de caronas e desconto no estacionamento para quem oferece carona
  • Somente 6% das analisadas concedem programa de caronas ou desconto no estacionamento para quem oferece carona
  • Cerca de 31% delas ofertam algum tipo de vaga gratuita (para determinados perfis e cargos)
  • 44% não oferecem nenhuma vaga gratuita em estacionamento

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