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Bike & Park

No trânsito, quem paga a conta são as mulheres

Recai sobre as mulheres o ônus de calçadas inexistentes ou esburacadas e do transporte público precário e caro

3 minutos, 12 segundos de leitura

09/03/2021

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Foto: Getty Images

Para ser sustentável, a mobilidade urbana deve priorizar os modos ativos de transporte e o transporte público, de forma que todos consigam – independentemente do modal – acessar a cidade. Ela se torna insustentável quando uma parcela da população não consegue se mover para garantir a mobilidade de outra.

Chegar a pé no Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, ilustra essa situação: ou você se atira entre os carros na Av. Pedro Álvares Cabral ou caminha quilômetros até a única faixa de pedestres que permite esse acesso, e reza para o semáforo da travessia funcionar. Ou seja, o principal monumento da história paulista está ilhado por avenidas de alta velocidade e, para chegar lá com segurança, é melhor ir de carro. Um exemplo de mobilidade insustentável, não inclusiva.

Carrocentrismo

As cidades brasileiras são cisalhadas por avenidas, viadutos, túneis, todas obras caras, que, ao não incluírem pessoas em seus projetos, excluem os chamados ‘não motorizados’ e, portanto, ‘não dignos de direitos’. Há um século, o Brasil insiste em produzir cidades desiguais, não inclusivas, de baixa qualidade de vida, insustentáveis e perigosas. Cidades ruins a todos, em especial a mulheres, crianças e idosos – de longe, os mais afetados. Cidades injustas.

Para mudar esse absurdo, o Plano Nacional de Mobilidade Urbana, em vigor desde 2012, garante por lei a prioridade dos modos ativos e públicos de transporte. Imagine calçadas livres de buracos, com guias rebaixadas nas esquinas e rotas de pedestres conectadas por travessias. Ciclovias e transporte público de qualidade integrados, isolados do congestionamento dos carros. Utopia? Não, esse direito já é realidade em várias cidades do mundo.

O cidadão paulistano acostumado a ruas entupidas de carros nem imagina que esse caos resolve apenas 30,9 % dos deslocamentos. O grosso da população (69,1%) ou está a pé e de bicicleta (32,7%) ou no transporte público (36,4%), segundo dados da Pesquisa de Origem e Destino do Metrô (2017). 

As mais prejudicadas

Se a esmagadora maioria não está em carros, a cota mais pesada dessa cadeia é das mulheres: 43,9% delas se locomovem de transporte público e 33,1% a pé ou de bicicleta. Faça as contas, 77% dos deslocamentos feitos pelas mulheres não são em automóveis e, quando isso ocorre, só 15% estão ao volante.

Como cabe às mulheres a missão de cuidar de filhos e idosos, da casa, do trabalho, das compras, e de tarefas extras não remuneradas que exigem várias saídas em um dia, a elas recai o ônus de calçadas inexistentes ou esburacadas. De transporte público precário e caro. De toda a conta de cidades insustentáveis, violentas, inacessíveis, desiguais, fruto do machismo estrutural, enraizado na cultura de se projetar mal o ambiente urbano.

Muito se fala em participação social para elaborar políticas públicas – isso é fundamental e com a necessária diversidade –, mas há também que se fazer, antes de aprovar cada projeto, cada orçamento, a simples pergunta: ‘Vai ser bom para as mulheres?’

E quem tem de responder são elas! Nada adianta um homem de 1,80 metro testar a altura de uma barra de apoio dentro de um ônibus e concluir que ‘Ahn, acho que essa altura está boa…’ O ‘achismo’ como ciência.

Se for bom para as mulheres, será ótimo a todas e todos, simples assim. Quem sente na pele o que é empurrar um carrinho de bebê, ajudar um idoso a subir uma escada, caminhar com uma criança repetindo ‘cuidado, não faça isso; cuidado, não faça aquilo’ nas calçadas, entende qual é o perrengue da imobilidade de nossas cidades.

São elas que sabem onde o calo dói, pois são elas que pagam a conta do trânsito.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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