Mobilidade para quê?

O grande mito da “mulher no volante”

Bia Figueiredo é a primeira brasileira a correr em uma categoria top do automobilismo mundial, a Fórmula Indy. Disputou também a Stock Car de 2014 a 2019. É a primeira mulher do mundo a vencer na Firestone Indy Lights, a única a ganhar a Fórmula Renault, a conquistar uma pole position na Fórmula 3 e a disputar e vencer o Desafio das Estrelas, torneio anual de kart organizado por Felipe Massa

3 minutos, 3 segundos de leitura

20/10/2021

Por: Bia Figueiredo

Foto: J.R. Duran

“Comecei no automobilismo aos 7 anos de idade com o apoio dos meus pais, sem os quais nada teria acontecido. Em casa, nunca existiram frases como ‘isso é coisa de menino’ ou ‘cuidado, isso é muito perigoso para uma menina’.

Meus pais deram o maior estímulo para fazermos a autoescola e nos acompanhavam nos primeiros dias de direção, assim como na primeira viagem dirigindo, para dar dicas e nos deixar mais seguras. Em muitas famílias, víamos o pai fazendo isso com o filho, mas não com a filha.

Outra iniciativa positiva na preparação de meninas e meninos para tirar a carteira de motorista seriam as experiências extracurriculares na escola, como a visita de instrutores e até a visita dos alunos ao Detran local. Tive uma experiência no Detran-SP na infância que nunca esqueci de tão especial que foi.

Na área do automobilismo, me estranhava muito algumas pessoas questionarem se eu poderia chegar às principais categorias, como a Fórmula 1 e a Indy. De fato, foram raras as aparições femininas na história do automobilismo, o que leva muitos a crer que ele seja um esporte só para homens. Mesmo com boas mudanças, as vitórias femininas em várias categorias do automobilismo mundial ainda são algo raro.

Quantas mulheres já me falaram que tinham o sonho de ser piloto, mas nunca foram apoiadas pela família. E qual mulher nunca ouviu a frase (que de engraçada não tem nada): ‘Mulher no volante, perigo constante’?

Só para relembrar alguns fatos históricos:

  • Em 1932, a primeira brasileira tirou a sua CNH. 
  • Ainda na década de 1960 existiam propagandas de montadoras que brincavam com a competência das mulheres na direção.
  • A Arábia Saudita autorizou mulheres a dirigir, pasmem, em 2018.

As mulheres normalmente (eu sou uma exceção) veem o carro como um meio de transporte. Querem ir e vir com segurança. Já os homens se envolvem emocionalmente com o automóvel, quase como uma paixão. Tendem a se sentir mais poderosos no carro. Querem acelerar, pois se sentem pilotos atrás do volante.

Nos cursos de direção preventiva que damos em empresas, é comum ver mulheres superatentas aos exercícios práticos e ir atingindo, aos poucos, as freadas e curvas com mais agressividade. Os homens são o contrário: costumam começar com muita agressividade, derrubar todos os cones, para, depois de alguns avisos, diminuir o ritmo e completar o exercício. Existem exceções, sim, homens mais cautelosos e mulheres mais agressivas, mas são pouco frequentes.

Os números falam por si só:

  • O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) registra 25,8 milhões de motoristas mulheres até março de 2021, o equivalente a 35% do total de Carteiras Nacionais de Habilitação válidas no País.
  • O número de mulheres envolvidas em sinistros de trânsito é menor. Segundo o Ministério da Saúde, 82% das vítimas fatais são do gênero masculino no Brasil.
  • 89% dos acidentes são causados por homens. Apenas 11% deles foram fruto de erro das motoristas.  
  • 70% das indenizações de seguro são pagas aos homens. Elas também são 17% mais caras do que as pagas para as motoristas.

Com esses dados, as mulheres conseguem um valor entre 10 e 15% mais baixo no seguro automotivo, quando comparado com o valor do seguro para homens.

Dirigir bem não significa dirigir rápido. Para homens e mulheres que curtem acelerar, convido sempre a ir correr de kart em alguma pista próxima. É o meio mais barato e seguro de se divertir e matar a vontade de acelerar.”

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