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Mobilidade para quê?

Reciclagem é o futuro das baterias elétricas

Indústria tem se preparado para reaproveitar todos os materiais do
equipamento no fim de sua vida útil

Mário Sérgio Venditti

16/02/2021 - 4 minutos, 37 segundos


reciclagem bateria elétrica
Fotos: Divulgação Nissan

A proliferação dos carros elétricos no mercado mundial gerou forte preocupação ligada à sustentabilidade: o que fazer com a bateria quando sua vida útil terminar? A dúvida ficou sem uma resposta clara durante muito tempo, mas agora a indústria já vem se preparando para dar destinação adequada ao “coração” do veículo elétrico, que é a reciclagem.

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O país do veículo elétrico

A bateria dura, em média, de oito a dez anos. Como o Brasil ainda vive o primeiro ciclo de veículos com propulsão elétrica nas ruas, ainda não há demanda para a reciclagem do componente. Quando isso começar a acontecer, é bem provável que a indústria esteja mais estruturada para que a bateria não seja simplesmente descartada, o que seria nocivo ao meio ambiente. A companhia americana OnTo Technology, por exemplo, vislumbra um mercado de reciclagem mais vigoroso em 2025.

“Atualmente, existem boas iniciativas para desenvolver a reciclagem de baterias de automóveis elétricos”, afirma Ariane Mayer, gerente de sustentabilidade e economia circular do Grupo Solvi, empresa nacional de atuação em soluções ambientais integradas. “A reciclagem é uma alternativa tecnicamente possível e desejável.”

Ela conta que os metais usados para a fabricação de baterias – como lítio, cobalto e níquel – causam danos à natureza e à saúde pública se forem descartados de forma incorreta. A boa notícia, porém, é que todos têm capacidade de ser reciclados infinitamente, permitindo sua reintrodução na cadeia produtiva como insumos para a fabricação de baterias novas.

Reciclagem de baterias ainda é uma operação onerosa, porque exige instalações especiais e mão de obra qualificada. Foto: Divulgação Nissan

Até 40% de lítio e cobalto poderão ser obtidos no processo de reciclagem. “Além de evitar impactos ambientais, isso fechará o ciclo de sua utilização e promoverá a economia circular”, revela Mayer.

Logística reversa

A reciclagem do chamado lixo eletrônico ganha mais relevância na medida em que alguns cuidados forem considerados, como a segurança na operação. O lítio é um material reativo e com certo risco de explosão, o que pode causar dificuldades na logística reversa.

Logística reversa é uma série de ações que viabiliza a coleta e a restituição de resíduos, com reaproveitamento em qualquer outro ciclo produtivo com destinação final adequada. “Esse ponto de atenção com o lítio é um desafio que requer soluções locais, sem grandes deslocamentos do produto”, acredita Ariane Mayer. 

Com 11 plantas no Brasil, o Grupo Solvi tem expertise em reciclagem de resíduos eletrônicos, mas está atento ao mercado de reciclagem de baterias de carros elétricos. 

Segundo Mayer, todos os materiais da bateria podem ser reaproveitados. Mesmo que o equipamento tenha uma segunda vida, como fornecedora de energia de estabelecimentos, ele tem um limite técnico e, inevitavelmente, passará pela reciclagem no futuro. “Os metais são recursos finitos e a reutilização deles assume um papel de destaque na fabricação de novas baterias”, completa.

Embora a indústria da reciclagem esteja se estruturando, Juliano Mendes, vice-presidente de componentes da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), vê uma barreira pela frente: os altos custos que a atividade exige. “A operação é onerosa, porque, entre outras exigências, precisa de uma área especial para o desmonte da bateria”, ressalta.

Uma tonelada de peso

A fonte de energia do carro elétrico é bastante peculiar e foge do padrão, a começar pelo tamanho: pesa cerca de 1 tonelada, contra os 100 gramas da bateria do telefone celular. “Cada uma tem formato diferente, de acordo com a fabricante. Antes de mais nada, é necessário desenergizá-la, desconectá-la de uma série de cabos, tirar todas as chapas e, a partir daí, mexer nas células”, destaca.

“Todo esse esforço requer engenharia e mão de obra qualificada, além de o processo da extração do material não ser igual para todas as químicas envolvidas e custar muito caro”, justifica Mendes. 

Em alguns casos, é mais dispendioso retirar os metais da bateria usada do que comprar matéria-prima virgem. Nesses casos, há a intervenção das autoridades para que a reciclagem não perca terreno. “Não é à toa que a China obriga as montadoras a comprar, todos os anos, um percentual mínimo de baterias de segunda mão”, afirma.

baterias elétricas
Grupo Solvi, que faz reciclagem de resíduos eletrônicos, já se prepara para trabalho de reaproveitamento de baterias de veículos elétricos. Foto: Divulgação Solvi

Dessa forma, o executivo acredita que não adianta investir pesado neste momento se o mercado ainda apresenta pouca demanda. “Esse problema não é local. Lá fora, a indústria da reciclagem também está cautelosa”, completa. 

Aos poucos, as marcas adotam medidas pensando no futuro de curto prazo. E isso não significa, necessariamente, usar baterias recicladas exclusivamente nos veículos elétricos. A americana Tesla anunciou que pretende reciclar as células exauridas e usar as baterias na realimentação de sua Gigafactory. A chinesa BYD aproveita o equipamento no fim da vida útil para pôr em funcionamento grandes acumuladores de energia estacionários.

Por mais que a criação de uma infraestrutura para reciclar baterias de carros elétricos ainda enfrente dificuldades, uma coisa é certa: os componentes terão destinação apropriada e não ficarão empilhados em cada esquina depois de descartados. O meio ambiente agradece. 

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