Mobilidade para quê?

Um fio liga jovens, mobilidade urbana e aquecimento global

Novos comportamentos destinados a frear o aquecimento do planeta podem estar sendo moldados nessa faixa etária

4 minutos, 4 segundos de leitura

16/09/2021

Um fio liga jovens, mobilidade urbana e aquecimento global
Foto: Getty Images

A população jovem brasileira está mais preocupada com as mudanças climáticas globais do que outras faixas etárias, ainda que essas estejam bastante interessadas, a julgar pelos resultados da pesquisa de opinião realizada pelo PoderData divulgados no final de agosto. Um total de 86% dos entrevistados de 16 a 24 anos se declarou muito preocupado, quando entre a população em geral o percentual é de 71% e, na turma de 25 a 44 anos, de 70%. Somente 1% deles declara-se nem um pouco preocupado, 8% dizem-se pouco preocupados, e 6%, mais ou menos. 

Certamente, são alvissareiras a notícia e os dados que traz, diante da necessidade dramática e urgente de redução das emissões de gases do efeito estufa, enfatizada há algumas semanas pelo novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

E seja ou não inspirada por potentes ativistas como a sueca Greta Thunberg, quase uma adolescente, a preocupação dos jovens brasileiros contém um indicador importante de que novos comportamentos destinados a frear o aquecimento do planeta podem estar sendo moldados nessas faixas etárias — com potencial para influenciar positivamente a médio prazo o papel do país no cenário internacional.

Mobilidade sustentável

Resta saber como e até que ponto. É consenso científico há bastante tempo que, no ambiente urbano, se pode obter uma redução sensível das emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera eliminando-se a queima de carvão e de petróleo – eletrificando, por exemplo, todo o transporte público, a frota de veículos individuais e apostando-se firmemente em meios limpos e leves como a bicicleta. Mas quanto, de fato, dá para fazer nesse sentido em poucos anos?

Ora, se tomarmos o exemplo de uma megalópole como São Paulo, talvez bastante em pouco tempo. Pesquisas do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) informam que o transporte público responde por 56,6% das viagens motorizadas e que quase metade das famílias residentes na cidade, isto é, 45,5%, não possui nenhum automóvel. 

O mesmo CEM, que é um dos centros de pesquisa, inovação e difusão apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Cepids-Fapesp), informa em um trabalho, publicado em 9 de agosto último, que a extensão da malha cicloviária na capital paulista, de que se beneficiam 40% da população, equivale a 37,8% da meta de 1.800 quilômetros estabelecida em três distintos planos pela prefeitura paulistana para 2028.

E, por fim, um levantamento do Detran de São Paulo mostra uma queda de 10,5% no número de pessoas de 18 a 30 anos que tiraram a carteira de habilitação (CNH) no estado nos últimos seis anos:  de 4,8 milhões em junho de 2015 para 4,3 milhões em junho de 2021, enquanto se registrava aumento de quase 17% na obtenção do documento pela população em geral. 

Desigualdade

Mas a par dessas tendências positivas, há que se considerar um conjunto de indicadores fornecidos pelos estudos do CEM que destacam uma profunda desigualdade na mobilidade na cidade de São Paulo. A propósito do transporte por bicicleta, diz: “Pode-se observar que pessoas brancas de classe alta são especialmente contempladas pela infraestrutura cicloviária. A renda dos moradores a 300 metros das ciclovias e ciclofaixas é 43% maior do que a média da cidade. No entorno das estações de bicicleta compartilhada a renda é 223% maior do que a média. As regiões onde a maior parte dos moradores não possui automóvel são menos contempladas pela infraestrutura cicloviária”.

Vale observar também, quanto ao transporte público, que a despeito de atender a maioria, apenas 18,1% da população paulistana reside em um raio de até um quilômetro de estações de transporte de alta capacidade (trem, metrô e monotrilho) – enquanto em 29 distritos mais distantes do centro e mais pobres dos 96 da cidade atinge 0% o contingente populacional que dispõe dessa facilidade.

Entre outros recados, essas desigualdades na mobilidade parecem dizer que, entre os jovens, quem mais pode contribuir para a redução das emissões de gases do efeito estufa na atmosfera urbana são os proprietários de automóveis. Mas aí os resultados da pesquisa do PoderData trazem uma péssima notícia: enquanto 90% de todos os entrevistados de 16 anos e mais sem renda fixa declararam-se muito preocupados com o aquecimento global e as mudanças climáticas, apenas 37% dos que ganham mais de dez salários-mínimos mensais manifestaram essa preocupação. 

Lamentável! Só muita educação para forçar uma mudança de cultura. De todo modo, lembremos aqui que as queimadas e determinados usos do solo em valiosos biomas brasileiros como a Floresta Amazônica e o Cerrado são vilões ainda mais perversos do aquecimento global e das mudanças climáticas do que a frota veicular a combustíveis fósseis.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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