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Mobilidade para quê?

Se essa rua fosse minha

Apesar de representarem 51,7% da população brasileira, as mulheres são proprietárias de apenas 14% dos automóveis e 6% das motocicletas.”

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08/03/2022

Um dos grupos que mais sofrem com a falta de políticas voltadas para sua mobilidade são as mulheres. Foto: Adobe Images

A mobilidade urbana em uma cidade inteligente não é apenas a quantidade de deslocamentos feitos em um dia. A discussão sobre o tema está atrelada às necessidades populacionais, econômicas e ambientais das metrópoles, deixando de ser apenas um tópico circunstancial: o acesso à locomoção também é o acesso a trabalho, lazer, saúde e educação.        

Para entender a mobilidade, é preciso ir além do planejamento urbano: temos que entender como as pessoas transitam de formas distintas com base em seus gêneros, classes sociais, sexualidades e raças. É indispensável construir uma cidade que reconheça os desafios diários que diferentes pessoas enfrentam ao se deslocar e que projete soluções para uma sociedade mais justa e igualitária.        

Um dos grupos que mais sofrem com a falta de políticas voltadas para sua mobilidade são as mulheres, que, enfrentando jornadas duplas no trabalho e em casa, são maioria no transporte público. Os deslocamentos realizados por esse grupo estão muito associados, também, ao papel social em que estão inseridas: ainda somos nós que temos as maiores responsabilidades pelo cuidado diário dos filhos, por levá-los ao médico, buscá-los na escola, entre outros compromissos.        

A pesquisa Informes Urbanos, realizada, em 2016, pela prefeitura de São Paulo, aponta que as mulheres são as que mais utilizam modais coletivos e ativos, o equivalente a 74,6% dos deslocamentos feitos dessas duas maneiras. Estudo mais recente, realizado, em 2021, pela Younder, revela que, apesar de representarem 51,7% da população brasileira, as mulheres são proprietárias de apenas 14% dos automóveis e 6% das motocicletas.        

O problema não está no fato de que os deslocamentos são feitos de maneira coletiva, mas na forma como eles estão decorrendo. De acordo com levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo, o transporte público segue em destaque como o local no qual as paulistanas acreditam correr mais risco de assédio, sendo que quase metade delas já foi vítima desse crime.

Assédio crescente

Apesar da criação da Lei Federal nº 13.718, em 2018, que define como crime atos de importunação sexual, a quantidade de mulheres assediadas no transporte público segue crescendo, ano após ano, correspondendo a um aumento de 4% entre 2020 e 2021. Como resultado disso, é comum que esse grupo opte por caminhos mais longos para evitar riscos e, como consequência, demore mais tempo para se locomover.        

Pensar em mobilidade é também trabalhar políticas para a segurança das mulheres, tornando os deslocamentos mais seguros. Soluções como os vagões rosas, destinados apenas a elas, em alguns sistemas de metrô, são, embora bem intencionadas, ainda medidas paliativas.        

O direito à locomoção compõe e reitera as fronteiras não ditas da cidade. Por muitas vezes, o planejamento urbano é pensado pela ótica da tecnologia e da inovação, mas não leva em conta desafios mais concretos, que dizem respeito ao bem-estar social e promovem igualdade.        

As medidas podem ser muitas: aumentar a fiscalização, garantir uma punição mais efetiva, promover campanhas contra o assédio, melhorar a iluminação pública, educar a população etc., mas qualquer medida só irá funcionar, na prática, se partir da necessidade de se pensar a cidade pelo olhar feminino.        

Nesse contexto, o Parque da Mobilidade Urbana, que acontece no Memorial da América Latina, em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de junho, planejou uma ação destinada a mapear e promover soluções inteligentes para segurar a mobilidade das mulheres. Além de diversas palestras que abordam o assunto, o evento irá contar com a elaboração de um mapa afetivo feito por elas.        

O levantamento tem como objetivo estruturar o sentimento com relação ao território em que vivem, trazendo experiências pessoais, fragilidades e potenciais da mobilidade urbana na visão desse grupo. O propósito do mapa afetivo é colocar as mulheres como protagonista de soluções que permitam um acesso mais equitativo às cidades.        

A criação do PMU, realizado pelo Connected Smart Cities em parceria com o Mobilidade Estadão, vai compartilhar experiências, engajar discussões e realizar ações concretas que serão desenvolvidas de forma colaborativa com diversos parceiros. A proposta inovadora do parque vai proporcionar a conexão dos atores do ecossistema de mobilidade urbana no Brasil, contando com exposição de produtos, serviços e tecnologias; demonstrações interativas; test drive e test ride; atividades recreativas; espaços de convivência; e muito conteúdo relevante acerca desse universo.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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