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A aceitação da família é tudo, diz mulher trans da capital paulista

No dia em que a cantora Traemme contou à família que era transexual, os pais a acolheram

4 minutos, 20 segundos de leitura

24/08/2021

Por: Julia Santiago, Embarque no Direito

A cantora Traemme recebe o carinho do pai. Quando ela contou que era transexual, aos 10 anos, a família a acolheu. Foto: arquivo pessoal

Preconceito e falta de conhecimento são entraves à comunidade LGBTQIA+; acolhimento em casa, informação e respeito salvam vidas

Reportagem de Julia Santiago, Embarque no Direito, em São Paulo

No dia em que Thaeme Felício, 23 anos — a cantora Traemme — contou à família que era transexual, os pais a acolheram. “Eles sempre entenderam esse universo, pois tínhamos exemplos LGBTQIA+ na família”, conta a artista. Ela explica que, embora naquele momento os dois não conhecessem totalmente o significado do termo transexual [pessoa cuja identidade de gênero difere do sexo físico/biológico], mãe e pai reconheciam em sua filha um lado feminino mais forte. “Mesmo eles tendo uma criação um pouco retrógrada, sempre se preocuparam comigo e procuraram me deixar à vontade para seguir. A aceitação da família é tudo”, afirma.

Com o apoio dos pais, aos 10 anos Traemme começou sua transição através da terapia hormonal — o objetivo desse processo é equilibrar os hormônios da pessoa dentro do gênero com o qual ela se identifica.

Conhecimento, informação e respeito

Para além de educação sexual, amparo psicológico e médico, o poder da escuta e da conversa que cria laços e contempla as diferenças e o respeito é transformador, tanto do ponto de vista subjetivo, quanto coletivamente, porque favorece a sociedade como um todo.

Traemme reconhece em sua própria trajetória o privilégio de ter o apoio da família — e defende a importância de os membros da comunidade LGBTQIA+ compartilharem suas histórias para incentivar outras pessoas a lidar com dramas e questões. “Quando um jovem se descobre trans, por exemplo, muitos pais se sentem despreparados para a situação, na maioria das vezes por falta de informação”, diz a cantora. “Se eu tive esse espaço dentro de casa, eu consigo enfrentar o mundo de outra maneira. Saber que existem pessoas que estão ali pra te apoiar não tem preço. Eu tento ajudar o máximo de pessoas que eu posso e seguir com a luta, porque eu sei que essa não é a realidade de muitas pessoas como eu”, conclui.

CONTEXTO BRASILEIRO
Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo, diz Antra

  • 35 anos é a expectativa de vida das transexuais no Brasil; a média nacional é de 76,3 anos para homens e 79,6 anos para mulheres
  • 175 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2020
  • São Paulo foi o estado que mais matou, seguido de Ceará, Bahia, Minas gerais e Rio de Janeiro
  • 90% da população trans tem na prostituição sua fonte de renda
  • 82% de travestis e transexuais abandonam a escola. Fonte: Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

Famílias acolhedoras

Ainda muito pequenas, as pessoas começam a lidar com as expectativas da sociedade. Meninos gostam de azul, de futebol e não choram. Meninas gostam de rosa, de boneca e são comportadas. Essas diferenciações, entretanto, não são naturais, mas social e historicamente construídas, a partir de padrões normativos do que é ser homem e o que é ser mulher. Para acolher e promover a diversidade — e não excluir o que extrapola esse universo construído —, é preciso que existam ambientes seguros nas escolas, entre amigos e dentro das casas.

Amanda Lopes, professora de uma rede de cursinhos populares, conta que no aniversário de 3 anos seu  filho Raone escolheu uma princesa como tema da festa. “Alguns dos nossos familiares viraram a cara pra nós a partir desse dia; eu tentei conversar, mas sem chance”, diz Amanda. “As pessoas têm mania de achar que a gente tá impondo esse modelo de criação para o nosso filho, mas na verdade a gente está aprendendo junto com ele.”

Para Francisco, pai de Raone, hoje com 5 anos, ensinar sobre diversidade não acarreta qualquer mudança de orientação sexual ou de identidade de gênero. “Na realidade, esse diálogo serve para construir maior compreensão e aceitação, por parte dos membros da família, da sexualidade e suas formas de expressão e vivência.”

A dupla já desejava uma “criação libertadora” e mais aberta ao diálogo do que ambos tiveram, antes mesmo de Raone nascer. Nesse contexto, quando a criança acessa outros discursos, para além do que é definido como ser menino ou menina, ela desenvolve um autoconceito melhor, afirma Amanda.


Para saber mais!

  • Orientação sexual: diz respeito ao desejo afetivo e sexual. As mais conhecidas são heterossexual, homossexual e bissexual, mas há outras.
  • Identidade de gênero: é como a pessoa se identifica e se apresenta à sociedade. Isso não depende do sexo biológico. Ela pode ter nascido com uma genitália masculina e se entender como mulher ou com nenhum gênero pré-definido. As pessoas podem ser cisgênero, transgênero ou não-binárias.
  • Sexo biológico: tem a ver com as características biológicas com as quais uma pessoa nasceu, a exemplo de cromossomos, genitália, aparelho reprodutor e composição hormonal. Assim, é possível ter pessoas do sexo masculino, o sexo feminino ou intersexo.

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