Operadoras de ônibus elétricos de SP acusam Enel de não ligar carregadores nas garagens; entenda
Sem poder usar subvenção da Prefeitura para comprar ônibus elétricos, operadoras alegam atraso da concessionári de energia para ligar pontos de recarga nos pátios; Enel alega que prazos serão cumpridos

Concessionárias que operam com ônibus elétricos no transporte público da cidade de São Paulo vêm relatando dificuldades para conseguir colocar seus veículos nas ruas – ou até comprá-los – devido ao cronograma da Enel para ligar os pontos de recarga nas garagens.
Dessa forma, elas deixam os ônibus parados e atrasam o cumprimento da Lei 16.802/2018, que define a redução de 50% das emissões em 2028 e 100% até 2038. Por sua vez, a Enel, concessionária responsável pela distribuição de energia no município, divulga o prazo de 120 dias para a instalação a partir da assinatura do contrato com as operadoras (ver abaixo).
O imbróglio cria uma espécie de paralisia. O programa de subvenção da Prefeitura de São Paulo obriga que as empresas apresentem a infraestrutura de recarga pronta para obter o financiamento destinado à aquisição dos ônibus movidos a bateria. Mas, sem o fornecimento da Enel, as operadoras ficam impedidas de solicitar o benefício.
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Ônibus elétricos
É o caso da A2 Transportes, dona de 494 veículos que circulam em 35 linhas na zona sul da capital paulista. Diariamente, ela transporta 280 mil passageiros. “Ainda não temos ônibus elétricos, pois a Enel não fez a eletrificação de nossa infraestrutura”, destaca o presidente Paulo Siqueira Korek. “Enquanto isso, estamos lidando com o envelhecimento da nossa frota de veículos.”
Ele explica que a A2 tem 170 veículos elétricos pré-encomendados e aguarda a instalação da energia para firmar o negócio com os fabricantes. “Até agora, investimos R$ 10 milhões de reais nos equipamentos de recarga e, assim que a Enel ampliar a rede, projetamos gastar mais R$ 10 milhões”, revela.
“A Enel alega questões técnicas e burocráticas que emperram a regularização do fornecimento de energia. O prazo inicial era março.” A Enel, por sua vez, garante que cumprirá o acordo.
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Mercado livre de energia para ônibus elétricos
A Movebuss também se sente de mãos atadas. Dos 602 veículos de sua frota, apenas três são elétricos, usados em algumas das 35 linhas que transportam 315 mil passageiros por dia na zona leste de São Paulo. “Temos a intenção de comprar mais 82 neste ano. Só depende da Enel”, afirma o presidente António Alves de Oliveira.
A garagem da Movebuss possui um carregador ativo e 17 aguardando o fornecimento da energia. “A Enel informa que o processo administrativo interno para disponibilizar a energia está em análise”, diz. “Assim, até agora, gastamos R$ 14 milhões e temos um plano de investimentos de mais R$ 200 milhões para 2025.”
“Existe um mercado livre para compra de energia, porém, toda a infraestrutura de transmissão é de responsabilidade da Enel. Ou seja, estamos amarrados a ela”, completa.
A frota da Transunião Transportes é dividida em dois lotes. O chamado D3 possui 481 ônibus, ao passo que o D7 trabalha com 132 veículos. A empresa ainda não opera veículos elétricos em suas 47 linhas, que atendem 270 mil usuários por dia na zona leste da cidade.

“A Transunião possui carregadores suficientes para 158 ônibus elétricos. O contrato do D7 foi assinado em dezembro de 2024 e do D3 em fevereiro passado, com a Enel pedindo 240 dias de prazo”, depõe o presidente da Transunião, Lourival de França Monario. “Já investimos R$ 6,6 milhões em infraestrutura de 16 carregadores.”
A Enel rebate ao dizer que as obras nas duas garagens da Transunião estão em andamento dentro do prazo contratual, com previsão de entrega em maio e setembro de 2025. Monario desmente: “O trabalho da Enel é a ligação externa e nada está sendo feito”.
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Gerador para suprir a energia que não chega
A Auto Viação Transcap tem um pouco mais de sorte. Dos 340 ônibus da frota, 130 são elétricos e 67 deles estão em operação nas 26 linhas da região sudoeste da capital.
O proprietário Válter da Silva Bispo explica que a companhia já desembolsou R$ 10 milhões na instalação de 19 pontos de recarga e R$ 338 milhões na compra dos veículos.
“A empresa precisa de 9 megawatts (MW) de energia para conseguir colocar todos os ônibus nas ruas, no entanto, a Enel só me concede 3 MW”, diz. A Enel argumenta que a quantidade liberada estava prevista no contrato assinado entre as partes.
“A Enel sempre pede adaptações nas obras e, a cada solicitação, leva mais 120 dias para responder. Somos reféns dela”, afirma. De acordo com Bispo, a empresa cogita comprar um equipamento homologado e que gera 1 MW de energia por hora, ao preço de R$ 6 milhões.
“Dependemos da Enel para a distribuição de energia. Não dá para escapar. Uma possível solução é usar esse gerador, que funciona a partir da água. Aí a concessionária não tem como interferir”, salienta.
As transportadoras são unânimes: não há a quem recorrer. Reuniões são feitas com a SPTrans – órgão responsável pela gestão da rede de transporte de passageiros do município -, sem, contudo, obter resultados efetivos.
Em nota, a SPTrans atesta que acompanha semanalmente as tratativas entre Enel e concessionárias. “Hoje, há 80 veículos esperando nas garagens a disponibilidade de energia. Para a inclusão de ônibus elétricos no Sistema de Transporte Municipal, é necessário que a infraestrutura de recarga esteja em conformidade com as exigências técnicas e contratuais”, encerra. Ou seja, o entendimento ainda parece distante.
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Enel afirma que mais 14 empresas serão atendidas em 2025
Em contato com Mobilidade Estadão, a Enel esclareceu, entretanto, que o período de 120 dias para o início do fornecimento de energia, a partir da assinatura do contrato, é definido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Assim, não fazem parte desse prazo as visitas técnicas e as eventuais alterações pedidas nos projetos das empresas. “Trata-se de um processo estritamente técnico e não político”, justifica a concessionária de energia.
“Em 2024, a Enel instalou a energia para seis operadores, totalizando 9 megawatts (MW). Assim, nos dois primeiros meses de 2025, a distribuidora concluiu a conexão em mais oito operadoras, somando 17 MW’, afirma.
Ainda de acordo com a empresa, a estimativa é entregar 45,7 MW de energia às concessionárias até o fim do ano. No total, 16 garagens tiveram a solicitação atendida e outras 14 serão contempladas ao longo de 2025.
A Enel argumenta, contudo, que cada caso exige um tempo diferente de instalação, dependendo da complexidade e do tamanho do projeto. “O contrato com as empresas é assinado após a aprovação do plano de ação e da apresentação da documentação para a viabilidade da obra”.
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