“Quando pedem uma reunião comigo, só vou se tiver bicicletário”, diz ativista

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“Quando pedem uma reunião comigo, só vou se tiver bicicletário”, diz ativista

Por: Marina Oliveira . 14/06/2024

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Mobilidade para quê?

“Quando pedem uma reunião comigo, só vou se tiver bicicletário”, diz ativista

Especialistas discutem estratégias para fortalecer o setor de bicicletas, promovendo um transporte sustentável e melhorando a qualidade de vida nas cidades brasileiras

4 minutos, 27 segundos de leitura

14/06/2024

Por: Marina Oliveira

Parque da Mobilidade Urbana
Da esquerda para a direita, Daniel Guth, Renata Falzoni, Murilo Casagrande e Victor Callil

A discussão sobre o fortalecimento da indústria de bicicletas no Brasil vai além do aspecto econômico, abrangendo a criação de infraestrutura adequada, políticas públicas eficazes e uma mudança cultural que incentive o uso de bicicletas como meio de transporte sustentável. No painel do Parque da Mobilidade Urbana, realizado na sexta-feira (14), na capital paulista, especialistas debateram estratégias para fortalecer o setor de bicicletas.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a adoção de bicicletas aumentou 14% nos dois primeiros meses de 2023, em comparação ao mesmo período do ano anterior, conforme pesquisa realizada na cidade de São Paulo. Esse aumento deve-se a algumas vantagens que o modal oferece. “A bicicleta pode não ser mais rápida, mas é mais confiável. Se você diz que vai chegar em uma hora, provavelmente vai chegar,” afirma Murilo Casagrande, do Instituto Aromeiazero,

A conscientização ambiental também desempenha um papel crucial. “99% dos brasileiros acreditam que os desastres no Rio Grande do Sul têm a ver com a mudança climática. Isso mostra que o negacionismo está limitado a 1%,” diz Casagrande, citando pesquisa do instituto Quaest.

Renata Falzoni, arquiteta e jornalista criadora do canal “Bike é Legal”, reforça a importância econômica do uso da bicicleta. “Para quem tem dinheiro, a economia de tempo é fundamental. Para um trabalhador, a economia financeira pode ser revertida em educação para os filhos,” comenta Falzoni. Ela também destaca o impacto positivo da bicicleta na felicidade das pessoas. “A bicicleta traz mobilidade com um ‘Q’ de felicidade. O valor agregado da felicidade da bicicleta é imensurável,” acrescenta.

Desafios e queda nas vendas de bicicletas

Apesar do crescimento no uso de bicicletas, o setor enfrentou desafios significativos nos últimos anos. Daniel Guth, diretor executivo da Aliança Bike, explica que 2020 foi um ano atípico devido à pandemia. “A partir de junho, a bicicleta passou a ser um símbolo de combate à pandemia. Oficinas e bicicletarias foram reconhecidas como serviços essenciais,” relata Guth. Esse aumento na demanda antecipou as compras dos anos seguintes, levando a uma queda nas vendas entre 2021 e 2023.

Guth aponta que o mercado não estava preparado para essa mudança abrupta. “O mercado não entendeu este movimento e achou que a bolha de 2020/2021 continuaria. Hoje ainda estamos vivendo com estoques altos e demanda baixa,” explica. A venda de bicicletas usadas também aumentou, impactando ainda mais o mercado de novas bicicletas.

Falzoni compara a situação do Brasil com a Europa, onde houve um incentivo significativo para o uso de bicicletas durante a pandemia. “Na Europa, houve um subsídio para levar as bicicletas a mecânicos credenciados e financiamento de grupos coletivos para ajudar as pessoas a pedalar em áreas urbanas. No Brasil, perdemos uma grande oportunidade,” lamenta.

Políticas públicas: caminhos para a sustentabilidade

A implementação de políticas públicas eficazes é fundamental para promover o uso de bicicletas como meio de transporte sustentável. Casagrande cita a Declaração Europeia sobre o Ciclismo como um exemplo a ser seguido. “A Declaração tem oito capítulos. O primeiro é sobre políticas públicas, o segundo sobre mobilidade inclusiva e só o terceiro é sobre infraestrutura adequada. Discutimos muito sobre infraestrutura, mas os programas de apoio ao transporte de bicicleta são fundamentais,” afirma.

Guth ressalta que a infraestrutura deve ser bem planejada e mantida. “A infraestrutura tem que estar adequada à rodovia e ser bem mantida, inclusive com fiscalização,” explica. Falzoni acrescenta que é necessário repensar a função das ruas. “As infraestruturas atuais são soluções toscas que permitem veículos a 50 km/h. Precisamos restringir a velocidade dos automóveis. Eu fico muito indignada como a gente aceita as mortes no trânsito e não faz uma revolução no país,” diz Falzoni.

Ela cita uma pesquisa do Instituto Multiplicidade Mobilidade Urbana que revelou que 8 em 10 pessoas conhecem alguém que morreu no trânsito. “Inovação é dar prioridade à vida. Ser atropelado a 50 km por hora por um veículo elétrico também mata,” acrescenta Victor Callil, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

A importância da educação e da cultura ciclística

Promover a cultura ciclística desde cedo é crucial para a formação de uma nova geração de ciclistas urbanos. Casagrande enfatiza a importância das ações nas escolas públicas. “É fundamental termos uma nova geração de ciclistas que utilizarão a bicicleta como meio de transporte ou promoverão este estilo de vida,” argumenta.

A falta de bicicletários nas cidades também é uma barreira significativa. “É uma aberração o terminal Barra Funda, daquele tamanho, não ter bicicletário,” critica Casagrande. Ele destaca que o bicicletário é essencial para garantir o acesso ao transporte público, promovendo a intermodalidade. A integração das bicicletas com outros meios de transporte público é crucial para aumentar o uso de bicicletas nas cidades. “O bicicletário é importante para garantir o acesso ao transporte público, o que traz mais rentabilidade para o sistema,” diz.

Falzoni reforça a importância do papel cidadão na promoção da cultura ciclística. “Geralmente, quando pedem uma reunião comigo, só vou se tiver bicicletário. É meu papel de cidadã fazer isso,” afirma.

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