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Mobilidade para quê?

Para construir, desde cedo, um trânsito consciente

Para promover um trânsito consciente no futuro, é importante educar e incentivar as crianças a aprenderem sobre o assunto.

27/11/2020 - 7 minutos, 17 segundos


trânsito consciente
Foto: Getty Images

Programas de educação para o tráfego com crianças e jovens ajudam na formação de motoristas mais empáticos e de um trânsito consciente 

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Por Daniela Saragiotto

Se engana quem pensa que trânsito consciente é apenas coisa de adulto: embora ainda não sejam condutoras de veículos, as crianças participam do tráfego como pedestres e ciclistas, e são passageiros atentos aos comportamentos dos pais e motoristas. Além disso, diversas experiências internacionais demonstram que, quanto mais cedo se inicia o aprendizado das noções de trânsito e de convivência, melhores serão os índices de acidentes de maneira geral.

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu capítulo V do artigo 76, determina que as ações de conscientização devem ser feitas desde a infância, “na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito e de Educação”. Mas, na prática, isso não acontece. Pelo menos, não de forma massificada, ficando as iniciativas nesse sentido restritas a algumas instituições de ensino, além de programas de institutos e organizações do setor privado, que entendem a importância do tema para a sociedade.

Conscientização

O programa Caminhos para a Cidadania, coordenado pelo Instituto CCR, é uma dessas ações de trânsito consciente. Ele nasceu em 2002, está presente no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná e atua com professores do ensino fundamental I da rede pública, que aplicam dinâmicas e conteúdos aos alunos com ênfase na educação para o trânsito. “A iniciativa colabora para ampliar a percepção de crianças e dos jovens na construção de uma sociedade mais consciente e sobre o seu papel na mobilidade”, explica Tonico Pereira, diretor de comunicação e sustentabilidade do Grupo CCR.

Até 2019, o programa era direcionado aos professores e alunos do 4º e 5º anos e utilizava livros, mas, no ano passado, migrou para o formato digital e, neste ano, também estendeu suas atividades para alunos do 1º ao 3º ano do ensino fundamental I, a pedido das escolas. O site do programa conta com materiais formativos, sugestões de atividades, vídeos, atividades, jogos e dicas que estão disponíveis ao público em geral.

De acordo com a CCR, desde 2002, o total de 3,4 milhões de alunos e 131 mil educadores passou pelas formações, em 118 municípios. Por meio de jogos, brincadeiras e situações simuladas em que são transmitidos os conceitos de respeito, cidadania, mobilidade, trânsito consciente e a importância de atitudes preventivas. “Essas atividades ainda estimulam as crianças a se tornarem multiplicadoras de conhecimento nos seus contatos familiares”, completa Pereira.

Cidade da criança

A Porto Seguro também atua na educação para o trânsito consciente, com atividades destinadas a crianças entre 5 e 12 anos. Sua Cidade Portinho Seguro, iniciativa criada há 20 anos, consiste em uma minicidade, montada em diversos locais – como shopping centers, colégios, entre outros –, que possui bicicletas e veículos elétricos infantis em uma pista, simulando situações comuns do tráfego. De forma interativa e lúdica, as crianças vivenciam comportamentos básicos, como entender as sinalizações, atravessar a rua em segurança, conduzir de forma segura carros e bicicletas, além de uma aula sobre regras e leis para pedestres e motoristas. 

De acordo com a Porto Seguro, o projeto atua em todo o Brasil e já atendeu mais de 500 mil crianças em mais de 90 cidades. “É importante conscientizá-las sobre o trânsito; afinal, muitas delas serão motoristas no futuro. Além disso, elas já fazem parte desse cotidiano sendo pedestres, ciclistas e passageiras. O projeto também nos permite reforçar esses conceitos aos pais por meio das lições que seus próprios filhos aprenderam”, comenta Jaime Soares, diretor da Porto Seguro Auto.

Nada de filas duplas

Nas unidades ABC, na Grande São Paulo, e Baixada Santista, em Santos, do Colégio Adventista, a educação para o trânsito está em toda a grade escolar, começando pela educação infantil, com as crianças do pré II. “Aos 5 anos, se inicia uma fase muito importante, marcada pelo começo da formação do caráter e das noções de responsabilidade e convívio com os demais; por isso, faz todo sentido que os alunos iniciem a educação no trânsito”, conta Ingrid Clemente, coordenadora pedagógica do ensino infantil e ensino fundamental I do Colégio Adventista.

Os alunos aprendem fazendo atividades como sinalização em papelão, construção de carrinhos e pistas com massa de modelar, simulação do tráfego em pistas montadas no colégio ou mesmo nas palestras, quando especialistas são convidados para falar. “E são muito questionadores quando os pais fazem algo errado, como parar em fila dupla na saída dos alunos, por exemplo – um comportamento que aqui não é comum, felizmente”, explica Clemente. A bicicleta tem destaque na formação, pois é muito presente no dia a dia dos alunos da unidade de Santos, litoral paulista. “Temos até bicicletários na entrada do colégio. Então, é fundamental que essas crianças e jovens conheçam as regras de trânsito e respeitem o espaço dos demais”, conclui. 

O Instituto Alpha Lumen, em São José dos Campos (SP), possui, desde 2016, o Projeto Escola Alpha Lumen Unidade II, com aplicação de conceitos de educação no trânsito da educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental. Além das atividades dentro da escola, os alunos também fazem vivências nos arredores, estudando placas de trânsito, observando faixas de pedestre e refletindo sobre o tema. “Os aprendizes aplicam as vivências com as próprias famílias e isso se multiplica na comunidade. É maravilhosa essa relação da criança com o conteúdo e com a própria vida”, diz Nuricel Aguilera, fundadora do Instituto Alpha Lumen.

Opinião do especialista

Psicólogo e neurolinguista, Rodrigo Vargas é agente de fiscalização de trânsito e transporte na Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), órgão gestor do trânsito em Porto Alegre. Desde 2015, faz parte da Coordenação de Educação para Mobilidade do órgão. Leia suas reflexões sobre o tema. 

Mobilidade: Por que a educação para o trânsito deve começar cedo?

Rodrigo Vargas: Vivemos em um país carrocêntrico, em que a vida das pessoas é pautada pelo automóvel; por isso, quando falamos em trânsito, tende-se a pensar em carros. Mas transitar é algo intrínseco à existência humana. Quando uma criança de 11 anos vai a pé para a escola, ela está em trânsito; quando um adolescente volta para casa se equilibrando sobre um skate ou uma bicicleta, também. Então, faz todo o sentido que a educação para o trânsito seja abordada desde muito cedo.

Quais os benefícios da educação para o trânsito?

Vargas: O trânsito brasileiro não é apenas um problema de saúde pública como também de cultura. E, do ponto de vista psicológico e comportamental, não se muda a cultura do dia para a noite. Essa é uma mudança geracional, ou seja, talvez nossos filhos ou netos vejam em alguns anos uma transformação considerável nesse sentido. Porém, quem trabalha com educação sabe que esse é um processo contínuo, que deve ser incentivado diariamente. Só assim teremos, no futuro, não apenas melhores motoristas mas melhores cidadãos.

Educação para o trânsito deveria ser obrigatória em todas as escolas?

Vargas: Essa é uma discussão antiga, que, embora esteja prevista no Código de Trânsito Brasileiro, pouco se faz nesse sentido. E os acidentes de trânsito são a principal causa de morte de crianças de 5 a 14 anos. Mas a grande maioria da população só terá contato com algum conceito de trânsito na formação para condutor. Hoje, quem trabalha na área prefere o termo “educação para a mobilidade”, pois é mais amplo e integra trânsito, economia, sustentabilidade, meio ambiente, cidadania – temas que precisam ser abordados de forma transversal.

O Programa Caminhos para a Cidadania (CCR) foi criado em 2002, atua em 118 municípios em SP, RJ e PR. Formou 3,4 milhões de alunos e 131 mil educadores

A Cidade Portinho Seguro (Porto Seguro) nasceu em 2000, atua em todo o Brasil e teve a participação de 500 mil crianças

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